CC BY-NC-ND 4.0 · Rev Bras Ortop (Sao Paulo) 2020; 55(02): 170-180
DOI: 10.1055/s-0039-3400739
Artigo Original
Básica
Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Published by Thieme Revinter Publicações Ltda Rio de Janeiro, Brazil

Tradução para o português brasileiro e adaptação transcultural do NCCPC-PV para avaliação de dor em pacientes com incapacidade intelectual de comunicação[*]

Article in several languages: português | English
1  Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, CE, Brazil
,
Catarina Nivea Bezerra Menezes
1  Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, CE, Brazil
,
Fabrício Oliveira Lima
1  Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, CE, Brazil
,
Viviane Rocha Celedonio
1  Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, CE, Brazil
,
Lara Moreira Teles de Vasconcelos
1  Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, CE, Brazil
,
Josenilia Maria Alves Gomes
1  Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, CE, Brazil
› Author Affiliations
Further Information

Endereço para correspondência

Paulo Giordano Baima Colares, Master
Universidade de Fortaleza (UNIFOR)
Avenida Washington Soares 1.321, Edson Queiroz, Fortaleza, CE, 60811-905
Brasil   

Publication History

02 April 2018

08 January 2019

Publication Date:
27 April 2020 (online)

 

Resumo

Objetivo Realizar a tradução e a adaptação transcultural para o português falado no Brasil do instrumento “Non-Communicating Children's Pain Checklist - Postoperative Version” (NCCPC-PV), destinado a avaliar a dor aguda em indivíduos com deficiência intelectual (DI) grave que apresentam grande comprometimento cognitivo e incapacidade de comunicação (CCIC).

Método No processo de adaptação utilizado, o NCCPC-PV original foi traduzido, retraduzido, suas versões foram discutidas por um comitê de especialistas, e a ferramenta resultante foi testada em 20 profissionais de saúde e 20 cuidadores de pacientes com CCIC quanto à sua clareza semântica.

Resultados Os dados deste estudo e de seus participantes foram analisados, e seus resultados foram descritos. Dessa maneira, obteve-se a Lista de Verificação de Dor em Crianças Não Comunicantes - Versão Pós-operatória (Br-NCCPC-PV) como a versão final para o português falado no Brasil.

Conclusão Após este estudo, a Br-NCCPC-PV foi considerada adequada para o uso na população brasileira.


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Introdução

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a deficiência intelectual (DI) como um estado da mente que apresenta o desenvolvimento incompleto ou interrompido das habilidades que contribuem para o nível de inteligência, como as capacidades cognitiva, de linguagem, e de interação social.[1]

A prevalência geral de DI é de 1,03%, sendo quase duas vezes maior nos países subdesenvolvidos se comparada com países de alta renda.[2] Petterson et al,[3] encontraram prevalência de 1% de DI na população geral, mas uma prevalência oito vezes maior em se tratando de crianças que apresentavam comorbidades ao nascimento. Um estudo de autoria de van Schrojenstein Lantman-De Valk et al[4] revelou que o risco de comorbidades era 2,5 vezes maior para as pessoas com DI do que para aquelas sem DI. O diagnóstico dessas doenças simultâneas entre pacientes com DI pode ser difícil, principalmente nos casos mais severos, devido à falta de ferramentas apropriadas e de profissionais treinados para identificar tais condições nesses indivíduos com comprometimento cognitivo e incapacidade de comunicação (CCIC).[5]

Além das comorbidades, pacientes com CCIC têm capacidade reduzida de expressar suas preocupações com a própria saúde, proporcionando uma visão limitada das suas necessidades. Observou-se que os pacientes com CCIC sofrem mais acidentes frequentemente associados a dor e desconforto; entretanto, sua dor nem sempre é prontamente reconhecida, e, sendo mal avaliada, pode ser manejada inadequadamente ou não tratada.[6] [7] [8] A gravidade dessa situação evidencia a necessidade de se desenvolver melhores estratégias de manejo clínico, podendo, assim, alcançar reduções substanciais da dor, melhora da qualidade de vida, e melhores resultados em longo prazo.[7] A identificação desses fatores de risco para etiologias de dor específicas pode ajudar cuidadores e profissionais.[9]

Esses indivíduos com DI grave estão em risco porque frequentemente apresentam condições médicas que podem causar dor, muitas vezes requerendo procedimentos, cirúrgicos ou não, que podem também ser potencialmente dolorosos. Muitos têm comportamentos idiossincráticos, que podem mascarar a expressão de dor, sendo assim difíceis de interpretar.[10]

Diante da escassez de instrumentos para avaliação de dor aguda em pacientes com CCIC, Breau et al[11] desenvolveram e validaram o instrumento “Non-communicating Children's Pain Checklist - Postoperative Version” (NCCPC-PV), utilizado para quantificar a dor após procedimentos cirúrgicos ou devido a procedimentos que possam provocar dor aguda realizados em outros ambientes.

No Brasil, país em que a prevalência de DI é de 0,8%, e em que 54,8% dos casos são graves, não há instrumentos desenvolvidos para avaliar a dor aguda em pacientes com CCIC, mesmo em condições pós-operatórias.[12] Portanto, o presente estudo visa descrever a tradução e adaptação transcultural do instrumento NCCPC-PV para o português falado no Brasil, que, após validado, poderá ser usado com segurança em diversos cenários clínicos, facilitando e otimizando condutas analgésicas para esse tipo específico de pacientes.


#

Metodologia

Este foi um estudo do tipo observacional, transversal e descritivo. O processo utilizado ([Figura 1]) foi composto de seis fases, de acordo com as orientações para adaptação transcultural de instrumentos de medidas em saúde descritas por Guillemin et al[12] e modificadas por Beaton et al.[13]

Zoom Image
Fig. 1 Etapas do processo de adaptação.

Durante a primeira fase (1), foi realizada a tradução do instrumento original em inglês para o português falado no Brasil por dois tradutores independentes sem conhecimento prévio do instrumento. Os tradutores envolvidos eram dois brasileiros natos bilíngues, sendo um médico, e o outro, tradutor profissional, que chegaram a uma versão final de consenso chamada Síntese da Tradução 1,2 (T1,2).

Na segunda etapa (2), foi realizada a retradução da T1,2 novamente para o inglês, por dois tradutores, de maneira autônoma, independente e cega quanto ao instrumento original. Os tradutores escolhidos tinham o inglês como língua materna, e não eram médicos ou de qualquer área da saúde. Após produzirem as suas versões das retraduções, chamadas RT1 e RT2, sintetizaram uma versão designada Síntese da Retradução 1,2 (RT1,2).

Durante a terceira etapa (3), foi realizada a avaliação da versão original do instrumento, assim como da T1, T2, T1,2, RT1, RT2 e RT1,2, por um comitê de especialistas (CE), que produziu uma versão pré-final. Esse comitê foi composto por dez profissionais de saúde interdisciplinar envolvidos no atendimento de pacientes com CCIC, uma psicóloga com experiência em processos de adaptações transculturais e validações de instrumentos de qualidade de vida, e pelos quatro tradutores envolvidos nas etapas anteriores. O objetivo foi produzir a versão pré-teste.

Por conseguinte, a quarta etapa (4) avaliou a clareza dos termos da versão pré-teste em uma amostra da população alvo, ou seja, 20 profissionais de saúde e 20 cuidadores, utilizando uma escala Likert com as mesmas 5 possibilidades: não claro; pouco claro; nem muito e nem pouco claro; claro; e muito claro. Os dados foram coletados nos períodos de maio de 2017 a setembro de 2017. No grupo dos profissionais de saúde, foram incluídos profissionais com formação acadêmica formal concluída em alguma área da saúde, e com experiência no atendimento de crianças com CCIC, sobretudo no manejo de situações dolorosas. No grupo dos cuidadores, foram incluídos cuidadores de crianças que apresentam CCIC que são atendidas nos ambulatórios de Ortopedia Pediátrica e/ou Reabilitação das instituições envolvidas. Foram considerados inaptos para participar da amostra cuidadores de pacientes com capacidade de autorrelato para queixa de dor e incapacidade, e cuidadores incapazes de entender todos os processos da pesquisa. Para fins epidemiológicos, foram utilizadas questões relativas à atividade prática e à experiência dos cuidadores com os pacientes com CCIC.

A versão pré-final foi definida durante a quinta etapa (5). As respostas dos dois grupos foram avaliadas separadamente e conjuntamente, e suas medianas foram calculadas a fim de identificar os itens com menor clareza. Devido ao pequeno tamanho da amostra, foram utilizadas estatísticas não paramétricas. As variáveis contínuas foram descritas como medianas e intervalos interquartil (IIQs). As variáveis categóricas foram descritas como números absolutos e porcentagens. Os profissionais de saúde e cuidadores foram comparados quanto a idade, sexo, escolaridade (Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior), e procedência (bairros da cidade onde a pesquisa foi realizada). Para a comparação de variáveis contínuas, foi utilizado teste de Mann-Whitney, e para a comparação de variáveis categóricas, foram utilizados o teste exato de Fisher ou o teste do qui-quadrado conforme apropriado. Todas as análises foram realizadas com o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS, IBM Corp., Armonk, NY, EUA), versão 20.0. Valores de p < 0,05 foram considerados estatisticamente significativos.

Na sexta etapa (6), os itens considerados menos claros foram novamente avaliados somente com os cuidadores, por esses terem obtidos medianas menores. Os seis itens menos claros tiveram uma nova questão norteadora: “Como este item poderia ficar mais claro?”. Suas respostas abertas foram compiladas, e as sugestões dadas pelos cuidadores abordados foram rediscutidas com o CE, sendo obtida a versão final.

A tradução foi previamente autorizada pela autora do instrumento NCCPC-PV original. Este estudo teve a aprovação do comitê de ética em pesquisa (CEP), estando todos os princípios éticos envolvidos na pesquisa em seres humanos no Brasil conforme a resolução no 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os integrantes dos grupos amostrais assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, e participaram da pesquisa de forma voluntária.


#

Resultados

A primeira etapa foi constituída da tradução para o português brasileiro do documento original NCCPC-PV em inglês. Todos os termos traduzidos (versões T1, T2 e T1,2) nessa fase são apresentados na [Tabela 1].

Tabela 1

Escala original

Tradução T1

Tradução T2

Versão T1,2

1

Moaning, whining, whimpering (fairly soft)

Gemendo, choramingando, soluçando (levemente)

Gemendo, choramingando, soluçando (levemente)

Gemendo, choramingando, soluçando (levemente)

2

Crying (moderately loud)

Chorando (moderadamente alto)

Chorando (moderadamente alto)

Chorando (moderadamente alto)

3

Screaming/yelling (very loud)

Chorando/berrando (muito alto)

Gritando/ Berrando (muito alto)

Gritando/berrando (muito alto)

4

A specific sound or word for pain (e.g., a word, cry or type of laugh)

Um som ou palavra específica para a dor (p. ex., choro ou tipo de risada)

Um som ou palavra especifica para dor (p. ex., uma palavra, grito ou tipo de sorriso)

Um som ou palavra específica para a dor (p. ex., choro ou tipo de risada)

5

Not cooperating, cranky, irritable, unhappy

Não cooperativa, mal-humorada, irritadiça, triste

Não cooperativa, irritadiça, triste

Não cooperativa, mal-humorada, irritadiça, triste

6

Less interaction with others, withdrawn

Menos interativa com os outros, retraída

Menos interativo com outras pessoas, retraído

Menos interativa com os outros, retraída

7

Seeking comfort or physical closeness

Buscando conforto ou proximidade física

Procurando por conforto ou aproximação física

Buscando conforto ou proximidade física

8

Being difficult to distract, not able to satisfy or pacify

Difícil de distrair, incapaz de ser satisfeita ou acalmada

Difícil de distrair, incapaz de ser satisfeita ou acalmada

Difícil de distrair, incapaz de ser satisfeita ou acalmada

9

A furrowed brow

Testa franzida

Sobrancelha enrugada

Testa franzida

10

A change in eyes, including: squinting of eyes, eyes opened wide, eyes frowning

Uma alteração nos olhos, incluindo: olhos estrábicos, olhos arregalados, olhos franzidos

Uma alteração dos olhos, incluindo olhos estrábicos, olhos arregalados, olhos carrancudos

Uma alteração nos olhos, incluindo: olhos estrábicos (apertados), olhos arregalados, olhos franzidos (semiabertos)

11

Turning down of mouth, not smiling

Virando a boca para baixo, sem sorrir

Boca direcionada para baixo, sem sorrir

Virando a boca para baixo, sem sorrir

12

Lips puckering up, tight, pouting, or quivering

Lábios cerrados, apertados, fazendo biquinho ou tremendo

Lábios franzidos, cerrados, amuados ou tremendo

Lábios cerrados, apertados, fazendo biquinho ou tremendo

13

Clenching or grinding teeth, chewing or thrusting tongue out

Dentes cerrados ou rangendo, mordendo ou pondo a língua para fora

Dentes cerrados ou rangendo, mordendo a língua ou empurrando-a para fora

Dentes cerrados ou rangendo, mordendo ou pondo a língua para fora

14

Not moving, less active, quiet

Sem se movimentar, menos ativa, quieta

Sem movimentar-se, menos ativa, quieta

Sem se movimentar, menos ativa, quieta

15

Jumping around, agitated, fidgety

Debatendo-se, agitada, inquieta

Debatendo-se, agitada, inquieta

Debatendo-se, agitada, inquieta

16

Floppy

Flácido

Flácido

Flácido

17

Stiff, spastic, tense, rigid

Teso, espástico, tenso, rígido

Espástico, tenso, rígido

Teso, espástico, tenso, rígido

18

Gesturing to or touching part of the body that hurts

Gesticulando na direção de ou tocando a parte do corpo que dói

Tocando ou gesticulando em direção ao membro que dói

Gesticulando na direção de ou tocando a parte do corpo que dói

19

Protecting, favoring or guarding part of the body that hurts

Protegendo, favorecendo ou defendendo a parte do corpo que dói

Protegendo, favorecendo ou defendendo a parte do corpo que dói

Protegendo, favorecendo ou defendendo a parte do corpo que dói

20

Flinching or moving the body part away, being sensitive to touch

Retraindo ou afastando a parte do corpo, sendo sensível ao toque

Encolhendo ou recolhendo a parte do corpo que se encontra sensível ao toque

Retraindo ou afastando a parte do corpo, sendo sensível ao toque.

21

Moving the body in a specific way to show pain (e.g., head back, arms down, curls up, etc.)

Movendo o corpo de maneira específica para demostrar dor (p. ex.: cabeça para trás, braços para baixo, em posição fetal, etc.)

Mexendo o corpo de uma maneira específica para demonstrar dor (p. ex., cabeça para trás, braços para baixo, encurvar-se, etc.)

Movendo o corpo de maneira específica para demostrar dor (p. ex.: cabeça para trás, braços para baixo, em posição fetal, encolhido, etc.)

22

Shivering

Tremor

Tremendo

Tremor

23

Change in color, pallor

Alteração na cor, palidez

Alteração de cor, palidez

Alteração na cor, palidez

24

Sweating, perspiring

Sudorese, transpiração

Suando, transpirando

Sudorese, transpiração

25

Tears

Lágrimas

Lágrimas

Lágrimas

26

Sharp intake of breath, gasping

Inspiração brusca, suspiro

Inspiração forçada, suspirando

Inspiração brusca, suspiro

27

Breath holding

Prendendo a respiração

Apneia, prendendo a respiração

Prendendo a respiração

Na segunda etapa, foram produzidas duas versões individuais da retradução da versão (T1,2) novamente para o inglês, e então uma versão conjunta (RT1,2) foi sintetizada. A [Tabela 2] mostra todos os termos retraduzidos independentemente, bem como a versão síntese da retradução (RT1,2).

Tabela 2

T1,2

Retradução RT1

Retradução RT2

Versão RT1,2

1

Gemendo, choramingando, soluçando (levemente)

Moaning, whimpering, sobbing (slightly)

Moaning, whimpering, sobbing (slightly)

Moaning, whimpering, sobbing (slightly)

2

Chorando (moderadamente alto)

Crying (moderately loud)

Crying (quite loud)

Crying (quite loud)

3

Chorando/berrando (muito alto)

Crying/screaming (very loud)

Crying/yelling (very loud)

Crying/screaming (very loud)

4

Um som ou palavra específica para a dor (p. ex., choro ou tipo de risada)

A sound or specific word for the pain (e.g., crying or a type of laugh)

A specific sound or word for the pain (e.g., a cry or type of laugh)

A specific sound or word for the pain (e.g., a cry or type of laugh)

5

Não cooperativa, mal-humorada, irritadiça, triste

Uncooperative, grumpy, irritable, sad

Uncooperative, bad-tempered, sad

Uncooperative, bad-tempered, irritable, sad

6

Menos interativa com os outros, retraída

Less interactive with others, withdrawn

Less interactive with others, withdrawn

Less interactive with others, withdrawn

7

Buscando conforto ou proximidade física

Seeking comfort or physical proximity

Seeking comfort or physical proximity

Seeking comfort or physical proximity

8

Difícil de distrair, incapaz de ser satisfeita ou acalmada

Hard to distract, unable to be satisfied or calmed down

Difficult to distract, incapable of being satisfied or soothed

Difficult to distract, incapable of being satisfied or soothed

9

Testa franzida

Frowning

Frowning

Frowning

10

Uma alteração nos olhos, incluindo: olhos estrábicos, olhos arregalados, olhos franzidos

A change in the eyes, including: cross-eyed, wide-eyed, squinting

A change in the eyes, including: squinting, wide eyes, ??? eyes (N.B. The Portuguese in this line is incomplete!)

A change in the eyes, including: cross-eyed, wide-eyed, squinting

11

Virando a boca para baixo, sem sorrir

Mouth turned down, unsmiling

Mouth turned down without smiling

Mouth turned down, unsmiling

12

Lábios cerrados, apertados, fazendo biquinho ou tremendo

Lips closed, closed tight, pouting or trembling

Tightly-closed, pouting or trembling lips

Closed, tightly-closed, pouting or trembling lips

13

Dentes cerrados ou rangendo, mordendo ou pondo a língua para fora

Clenched or grinding teeth, biting or sticking tongue out

Tightly-closed or gritting teeth, biting or sticking tongue out

Clenched or gritting teeth, biting or sticking tongue out

14

Sem se movimentar, menos ativa, quieta

Not moving, less active, quiet

Motionless, less active, quiet

Motionless, less active, quiet

15

Debatendo-se, agitada, inquieta

Struggling, agitated, restless

Struggling, agitated, restless

Struggling, agitated, restless

16

Flácido

Flaccid

Flaccid

Flaccid

17

Teso, espástico, tenso, rígido

Stiff, spastic, tense, rigid

Stiff, spastic, tense, rigid

Stiff, spastic, tense, rigid

18

Gesticulando na direção de ou tocando a parte do corpo que dói

Gesturing toward or touching the body part that hurts

Gesticulating in the direction of, or touching, the part of the body that hurts

Gesturing in the direction of, or touching, the part of the body that hurts

19

Protegendo, favorecendo ou defendendo a parte do corpo que dói

Protecting, favoring or defending the part of the body that hurts

Protecting, favoring or defending the part of the body that hurts

Protecting, favoring or defending the part of the body that hurts

20

Retraindo ou afastando a parte do corpo, sendo sensível ao toque

Shrinking back or moving the part of the body away, being sensitive to touch

Retracting or drawing back the part of the body that is sensitive to touch

Shrinking back or moving the part of the body away, being sensitive to touch

21

Movendo o corpo de maneira específica para demostrar dor (p. ex.: cabeça para trás, braços para baixo, em posição fetal, encolhido, etc.)

Moving the body in a specific way to demonstrate pain (e.g.: head back, arms down, adopting a fetal position, etc.)

Moving his/her body in a specific way to demonstrate pain

Moving his/her body in a specific way to demonstrate pain (e.g.: head back, arms down, adopting a fetal position, etc.)

22

Tremor

Tremor

Tremors

Tremor

23

Alteração na cor, palidez

Change in color, paleness

Color change, paleness

Color change, paleness

24

Sudorese, transpiração

Sweating, perspiration

Sweating, transpiring

Sweating, perspiring

25

Lágrimas

Tears

Tears

Tears

26

Inspiração brusca, suspiro

Sudden inspiration, sighing)

Sudden breathing, sighing

Sudden inhalation, sighing

27

Prendendo a respiração

Holding their breath

Holding his/her breath

Holding his/her breath

Durante a terceira etapa, após a avaliação de todas as versões pelo CE, foi produzida a versão pré-teste, que foi avaliada durante a quarta etapa. Um total de 40 indivíduos analisaram a clareza de todos os 27 itens, e a versão pré-teste foi usada para avaliar 20 pacientes de referência.

Quantos aos dados demográficos, as crianças tinham em média 3,09 (9–84 meses) anos, e a paralisia cerebral (PC) por anoxia cerebral foi o diagnóstico mais encontrado, com 9 (45%) dos casos. A microcefalia e a síndrome de Down também tiveram um número maior de casos, com 4 (20%) cada. A [Tabela 3] ilustra as características epidemiológicas dos pacientes de referência.

Tabela 3

Características

n

%

Idade

3,09 anos*

30–41 meses#

Diagnóstico

Paralisia cerebral

Síndrome de Down

Microcefalia

Incontinência

Cornelia Lange

Pigmentar

Mielomeningocele

9

4

4

1

1

1

45

20

20

5

5

5

Tratamento atual

Fisioterapia

Fonoaudiologia

Terapia ocupacional

Hidroterapia

Equoterapia

20

20

20

1

1

100

100

100

5

5

Internações prévias

0,0*

Cirurgias prévias

0,0*

Motivos

Sem cirurgia

Hérnia inguinal

Cirurgia cardíaca

Troca de válvula de DVP

Lábio leporino

Gastrostomia

Cisto liquórico

Criptorquidia

Mudança de válvula de derivação ventrículo-peritoneal

Instalação de DVP

12

3

3

1

1

1

1

1

1

1

60

15

15

5

5

5

5

5

5

5

Todos os profissionais de saúde envolvidos tinham mais de 10 anos de formação em suas profissões, 14 (70%) tinham mais de 10 anos de vivência com pacientes com CCIC, e 14 (70%) trabalhavam em hospitais públicos. Os dados estão descritos na [Tabela 4].

Tabela 4

Características

n

%

Profissão

Médico ortopedista

Médico pediatra

Médico clínico da dor

Médico residente

Enfermeiro

Técnico/Auxiliar de enfermagem

Terapeuta ocupacional

Fisioterapeuta

3

3

2

0

3

2

3

4

15

15

10

0

15

10

15

20

Local onde tem contato com pacientes com comprometimento cognitivo e incapacidade de comunicação

Hospital público

Hospital privado

Ambulatório público

Ambulatório privado

14

2

7

5

70

10

35

25

Tempo de experiência com pacientes com comprometimento cognitivo e incapacidade de comunicação

< 1 ano

1–5 anos

5–10 anos

10–20 anos

> 20 anos

1

3

2

6

8

5

15

10

30

40

Tempo de formado

< 1 ano

1–5 anos

5–10 anos

10–20 anos

> 20 anos

0

0

0

10

10

0

0

0

50

50

Observou-se no grupo dos cuidadores ([Tabela 5]) que a mãe era o principal cuidador do paciente (17 [85%] casos), a atividade principal exercida era a de dona de casa (15 [75%] casos) e que os cuidadores permaneciam entre 12 a 18 horas (7 [35%] casos) ou mais do que 18 horas (11 [55%] casos) por dia na presença da criança de referência.

Tabela 5

Características

n

%

Parentesco

Mãe

Pai

Tia

17

1

2

85

5

10

Quantidade diária de tempo passada com o paciente

6–12 horas

12–18 horas

> 18 horas

Dias alternados

1

7

11

1

5

35

55

5

Profissão

“Do lar”

Porteiro

Cabeleireiro

Técnico em enfermagem

Administrador de empresa

Odontólogo

15

1

1

1

1

1

75

5

5

5

5

5

A [Tabela 6] mostra as medianas da avaliação de cada um dos 27 itens que compõem a versão pré-final do questionário.

Tabela 6

Tradução da versão pré-final

Profissionais de saúde

Cuidadores

Todos

Mediana

Percentis

Mediana

Percentis

Mediana

Percentis

1

Gemendo, choramingando, soluçando (levemente)

5

3,25–5,0

4

4,0–4,0

4

4,0–5,0

2

Chorando (moderadamente alto)

5

4,0–5,0

4

4,0–4,75

4

4,0–5,0

3

Chorando/berrando (muito alto)

5

5,0–5,0

4

4,0–5,0

5

4,0–5,0

4

Um som ou palavra específica para a dor (p. ex., choro ou tipo de risada)

4,5

2,25–5,0

4

2,25–4,0

4

2,25–5,0

5

Não cooperativa, mal-humorada, irritada, triste

5

4,0–5,0

4

4,0–4,75

4

4,0–5,0

6

Menos interativa com os outros, retraída

5

4,0–5,0

4

3,25–4,0

4

4,0–5,0

7

Buscando conforto ou proximidade física

5

4,0–5,0

4

3,0–4,0

4

4,0–5,0

8

Difícil de distrair, incapaz de ser satisfeita ou acalmada

5

4,0–5,0

4

3,25–4,0

4

4,0–5,0

9

Testa franzida

5

4,0–5,0

2

2,0–4,0

4

2,0–5,0

10

Uma alteração nos olhos, incluindo: olhos estrábicos, olhos arregalados, olhos franzidos

5

4,0–5,0

3,5

2,0–4,0

4

2,25–5,0

11

Virando a boca para baixo, sem sorrir

4

2,25–5,0

2

1,0–4,0

3,5

2,0–4,75

12

Lábios cerrados, apertados, fazendo biquinho ou tremendo

5

4,0–5,0

3,5

2,0–4,0

4

3,0–5,0

13

Dentes cerrados ou rangendo, mordendo ou pondo a língua para fora

4,5

3,25–5,0

4

2,0–4,0

4

2,25–5,0

14

Sem se movimentar, menos ativa, quieta

5

3,25–5,0

4

4,0–4,75

4

4,0–5,0

15

Debatendo-se, agitada, inquieta

5

5,0–5,0

4

4,0–5,0

5

4,0–5,0

16

Flácido

5

3,25–5,0

2

1,25–4,0

4

2,0–5,0

17

Teso, espástico, tenso, rígido

5

5,0–5,0

4

2,0–4,0

4

3,25–5,0

18

Gesticulando na direção ou tocando a parte do corpo que dói

5

5,0–5,0

4

2,0–4,0

4

4,0–5,0

19

Protegendo, favorecendo ou defendendo a parte do corpo que dói

5

4,0–5,0

4

2,0–4,0

4

3,25–5,0

20

Retraindo ou afastando a parte do corpo, sendo sensível ao toque

5

4,25–5,0

4

3,0–4,0

4

4,0–5,0

21

Movendo o corpo de maneira específica para demostrar dor (p. ex.: cabeça para trás, braços para baixo, em posição fetal, corpo encolhido, etc.)

5

4,0–5,0

4

4,0–4,0

4

4,0–5,0

22

Tremor

5

4,0–5,0

4

3,25–5,0

4,5

4,0–5,0

23

Alteração na cor da pele, palidez

5

4,0–5,0

4

3,0–5,0

4

3,25–5,0

24

Sudorese, transpiração

5

4,0–5,0

2

1,0–4,0

4

2,0–5,0

25

Lágrimas

5

4,0–5,0

5

4,0–5,0

5

4,0–5,0

26

Inspiração brusca, suspiro

5

3,25–5,0

4

2,0–4,0

4

3,0–5,0

27

Prendendo a respiração

5

3,0–5,0

4

2,0–4,0

4

3,0–5,0

A [Tabela 7] correlaciona algumas características dos cuidadores e dos profissionais de saúde. Encontrou-se que a mediana das idades dos profissionais de saúde foi de 10 anos a mais do que a dos cuidadores. O sexo feminino foi mais presente, mas não houve diferença significativa entre os dois grupos. Encontrou-se diferença significativa com relação à educação, pois os profissionais de saúde em geral tinham maior grau de instrução.

Tabela 7

Cuidadores

Profissionais de saúde

Valor de p

Característica

Idade (anos)

33,5*

43,5*

1,0

30–41#

40–52#

n

%

n

%

Sexo

Feminino

Masculino

19

1

95

5

18

2

90

10

1,0

Grau de instrução

Nível Superior

2

10

20

100

0,001

Nível médio completo

6

30

0

0

Nível fundamental

9

45

0

0

Nível fundamental incompleto

3

15

0

0

Durante a avaliação das medianas e percentis da versão pré-final, foram identificados 6 itens (9, 10, 11, 12, 16 e 24) com medianas de até 3,5; ou seja, classificados como “nem muito e nem pouco claro” pela escala Likert utilizada. Essas classificações piores foram encontradas somente entre os cuidadores e, por esse motivo, eles foram escolhidos para um novo teste por meio de um questionário aberto, a fim de tentar realizar os últimos melhoramentos e ajustes quanto à clareza.

Primeiramente, o item 9 da versão pré-final, “testa franzida”, foi ajustado segundo sugestão do CE para “testa franzida, com o rosto tenso” para melhor correlação com avaliações álgicas.

No item 10, o termo “squinting of eyes” foi traduzido como “olhos estrábicos”, e foi pouco compreendido. Após rediscussão, decidiu-se que a melhor tradução para “squinting of eyes” seria “olhos apertados”, assim ficou esse item na versão final. Outro termo sugerido para “squinting of eyes” foi “olhos apertados, fixados, ou assustados”.

Já o item 11, “virando a boca para baixo, sem sorrir”, após breve discussão, foi alterado para “virando a boca para baixo, sem sorrir, fazendo beicinho”. Para o item 12, todas as sugestões foram recusadas pelo CE, ficando o item como já tinha sido definido na versão pré-teste.

O item 16 foi o que mais gerou discussão: “flácido”. Diversas sugestões foram apresentadas pelos cuidadores, como “com o músculo mole”, “musculatura mole”, “corpo relaxado”, e “molinho.” Ao final, a proposta aceita foi “flácido, com o corpo relaxado.”

Por fim, o item 24, “sudorese, transpiração”, foi alterado para “sudorese, suando muito, transpirando.”

Outras modificações também foram sugeridas. No item 1, o termo “whimpering” retornou para a tradução “choramingando”, e o termo “whining” foi trocado para “reclamando”. No item 3, o termo “screaming” mudou para “gritando”. No item 13, o termo “chewing”, que anteriormente tinha sido traduzido como “mordendo”, foi trocado para “mastigando.” No item 20, a tradução final ficou “encolhendo ou recolhendo a parte do corpo que se encontra sensível ao toque”. Por fim, o termo “gasping”, do item 26, foi traduzido como “ofegante”.

Assim, chegou-se à versão final da adaptação transcultural para o português falado no Brasil denominada Lista de Verificação de Dor em Crianças Não Comunicantes – Versão Pós-Operatória (Br-NCCPC-PV), que, por fim, foi considerada adaptada.


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Discussão

O NCCPC-PV tem chamado a atenção de vários centros especializados no tratamento de pacientes com CCIC, tendo em vista sua fácil aplicabilidade, pois são necessários apenas 10 minutos de observação para completar os 27 itens, não sendo obrigatório estar continuamente olhando para o paciente (o respondente e o paciente devem apenas estar no mesmo ambiente), podendo ser usado tanto em ambientes hospitalares quanto em locais similares na vigência de dor aguda. O instrumento apresentou boa consistência e confiabilidade em vários estudos de validação.[11] [14] [15] [16]

Escolheu-se o processo de adaptação de Beaton et al[13] por ele ser considerado consistente e detalhado para uma melhor adequação dos termos traduzidos para a língua alvo, no caso, o português falado no Brasil.

Uma limitação encontrada na amostra dos cuidadores foi que somente 40% de suas crianças de referência já tinham passado por experiências pós operatórias, por serem provenientes de serviço de atendimento médico em nível secundário o que pode ter provocado um viés na amostra. Apesar da possibilidade de esse fator ser limitante em relação à capacidade dos cuidadores de testar os itens do NCCPC-PV, essa amostra foi aceita, pois esse instrumento foi desenvolvido não somente para dor pós-operatória, como também para outras situações de dor aguda, experiência comum entre tais crianças. Além do mais, a amostra testada não foi de pacientes mas de cuidadores com profundo conhecimento SOBRE O comportamento de seus cuidados, inclusive quanto à dor aguda. Assim, foi considerado como principal fator nos critérios de inclusão que os cuidadores tivessem experiência com crianças com CCIC, mesmo que essas não tenham passado por experiências pósoperatórias.

Quanto ao perfil, a maioria dos cuidadores era do sexo feminino (95%), mães das crianças cuidadas (85%), que dedicavam mais de 12 horas diárias à função de cuidadora (90%), e que tinham o ambiente doméstico como principal local de atividade diária (75%). Todos esses fatores estão relacionados, e demonstram o grande impacto que a DI exerce em suas famílias. Essa quase exclusiva participação do sexo feminino, principalmente de mães como cuidadoras, seguiu a mesma tendência da literatura.[17] [18]

Para quantificar o nível de experiência de nossa amostra de profissionais de saúde, analisamos o tempo de experiência deles na prática de suas atividades profissionais. Observamos que todos os profissionais (100%) tinham mais de 10 anos de formados em suas profissões. Com esse objetivo, também verificou-se que 14 profissionais (70%) tinham mais de 10 anos de experiência no atendimento a pacientes com CCIC. Essa amostra foi considerada experiente em relação a suas atividades profissionais de saúde, colaborando com a boa qualidade da adaptação. Já a idade, apesar de não mostrar diferença significativa, revelou uma diferença de 10 anos entre cuidadores e profissionais de saúde.

Toda a amostra (n = 40) teve quase todas as medianas conjuntas entre 4 e 5 (apenas uma mediana com 3,5), ou seja, os itens traduzidos foram considerados “claros” e “muito claros” no geral.

Ao final do processo, o instrumento Br-NCCPC-PV, adaptado e descrito na [Figura 2], foi considerado adequado para profissionais e cuidadores de referência para ser utilizado em pacientes com CCIC após validado, sendo bem compreendido.

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Fig. 2 Lista de verificação de dor em crianças não comunicantes – versão pós-operatória (Br-NCCPC-PV).
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Conclusão

Este estudo adaptou o NCCPC-PV para o português falado no Brasil a fim de possibilitar sua melhor compreensão quando aplicado a cuidadores e profissionais de saúde ao medir dor aguda em crianças brasileiras. Depois de todo o processo, o Br-NCCPC-PV, adaptado à população brasileira, será validado em pacientes brasileiros para avaliar sua consistência interna e externa, testando sua confiabilidade.


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Conflito de Interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

* Estudo realizado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, CE, Brasil.



Endereço para correspondência

Paulo Giordano Baima Colares, Master
Universidade de Fortaleza (UNIFOR)
Avenida Washington Soares 1.321, Edson Queiroz, Fortaleza, CE, 60811-905
Brasil   


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Fig. 1 Etapas do processo de adaptação.
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Fig. 1 Stages of the adaptation process.
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Fig. 2 Lista de verificação de dor em crianças não comunicantes – versão pós-operatória (Br-NCCPC-PV).
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Fig. 2 Brazilian portuguese version of Non-communicating Children's Pain Checklist -Postoperative Version (Br-NCCPC-PV).
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