CC BY-NC-ND 4.0 · Rev Bras Ortop (Sao Paulo) 2021; 56(01): 053-060
DOI: 10.1055/s-0040-1709989
Artigo Original
Joelho

Estudo comparativo da função e qualidade de vida de pacientes submetidos à artroplastia total do joelho com plataformas tibiais fixa e móvel

Article in several languages: português | English
Daiane Cavenaghi Nacca
1   Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brazil
,
Joicemar Tarouco Amaro
1   Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brazil
,
2   Instituto Cohen de Ortopedia e Reabilitação e Medicina do Esporte, São Paulo, São Paulo, Brazil
,
1   Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brazil
,
1   Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brazil
,
Moisés Cohen
1   Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brazil
› Author Affiliations
 

Resumo

Objetivo Comparar a função e qualidade de vida dos pacientes submetidos a artroplastia total de joelho (ATJ) com plataforma tibial fixa e plataforma tibial móvel.

Métodos Foram avaliados 240 pacientes com diagnóstico de osteoartrose de joelho, em um ensaio clínico, randomizados em dois grupos: grupo A, composto por 120 pacientes submetidos a ATJ com plataforma tibial fixa, e grupo B, formado por 120 pacientes com plataforma móvel. Todos foram avaliados de acordo com a função e qualidade de vida pelos questionários de Western Ontario and McMaster Universities Arthritis Index (WOMAC) e Short Form Health Survey(SF-36), e escores de dor, por meio da escala visual analógica (EVA) de dor, no pré-operatório e com 6meses, 1ano, 2anos, 4anos e 8anos de cirurgia.

Resultados Com relação aos diversos domínios do SF-36, o comportamento médio dos escores de capacidade funcional, aspectos físicos, dor e aspectos emocionais foram estatisticamente diferentes ao longo do seguimento, em ambos os grupos. Os demais domínios de qualidade de vida não apresentaram diferenças. Assim como na EVA de dor, o escore médio do WOMAC de dor apresentou melhora ao longo do seguimento em ambos os grupos. Entretanto, com dois anos de seguimento, foram estaticamente piores no grupo A, se igualando ao grupo B nos outros momentos de acompanhamento.

Conclusão Com 2anos de pós-operatório, os escores de dor do WOMAC e daEVA foram piores no grupo submetido aATJ com plataforma tibial fixa. Porém, as diferenças não permaneceram no médioprazo, sugerindo que a artroplastia com plataforma tibial móvel tem uma vantagem no curto prazo, podendo auxiliar no processo de reabilitação.


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Introdução

Nas últimas décadas, com o envelhecimento da população geral e as alterações do sistema musculoesquelético decorrentes desse processo, a osteoartrose tem se tornado um importante problema de saúde.[1] [2] [3] Os sintomas desta doença degenerativa da cartilagem articular levam à incapacidade funcional e perda da qualidade de vida do idoso.[4] [5] [6] [7] [8] [9] Estes sintomas têm sido elementos de avaliação dos tratamentos, entre eles, a artroplastia total de joelho (ATJ).[10] [11]

Os métodos para avaliar os resultados da ATJ são: as taxas de mortalidade, morbidade, complicações e durabilidade. Entretanto, com o crescimento rápido de melhorias nos procedimentos, essas taxas já não refletem o real benefício na qualidade de vida do indivíduo.[12] [13] [14] Dessa forma, as avaliações com questionários genéricos ou específicos referentes ao tratamento têm fornecido informações valiosas. Destaca-se, entre eles, o Western Ontario and McMaster Universities Arthritis Index(WOMAC) para a ATJ, e o Short Form Health Survey(SF-36) para avaliar a qualidade de vida.[10] [15] Estes questionários têm mostrado os bons resultados da ATJ na melhora da função e qualidade de vida de pacientes idosos.

A ATJ pode ser dividida de acordo com o componente tibial em dois tipos: ATJ com plataforma fixa e com plataforma móvel. Segundo Wyldeet al,[16] a ATJ padrão –com plataforma fixa– pode levar a uma carga excessiva na região posterior do componente tibial, aumentando o desgaste do polietileno, acarretando maior risco de falha e necessidade de revisão. Dessa forma, as ATJs com plataforma móvel, por permitirem maior mobilidade rotatória e melhor congruência do componente de polietileno, possuem a vantagem teórica de se autoalinhar, reduzindo a incidência de dor anterior no joelho, produzindo melhor função.

Visto isso, as vantagens teóricas da ATJ com plataforma móvel devem ser confirmadas clinicamente, já que, até agora, não há consenso em relação aos melhores resultados, e estudos anteriores foram considerados de baixa qualidade.[17]

O objetivo do presente estudo é comparar a função e qualidade de vida dos pacientes que foram submetidos à ATJ com plataformas fixa e móvel.


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Métodos

Todos os procedimentos foram aprovados pelo comitê de ética em pesquisa da nossa universidade.

Este é um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, realizado no período de janeiro de 2004 a janeiro de 2007. Os critérios de inclusão foram: 1–idade entre 55 e 70 anos, 2–sinais e sintomas clínicos compatíveis com osteoartrose do joelho, 3–sinais radiográficos de osteoartrose tricompartimental graus III, IV e V de Ahlback modificada por Keyes e Goodfellow, 4–Ausência de doenças associadas acometendo membros inferiores, 5–Ausência de distúrbio neurológico, 6–Ausência de lesões nervosas ou fraturas prévias nos membros inferiores. Os critérios de não-inclusão foram: 1–infecção, 2–deformidade de flexão > 10°, 3–desvios angulares em varo e valgo > 25°, 4–defeito focal tumoral, 5–condições físicas que eliminariam o suporte de implante adequado, 6–doença coexistente com risco à vida no ano seguinte ao procedimento. Pacientes que se disseram incapazes ou não deram certeza de retornar para acompanhamento foram excluídos do estudo.

Após avaliação clínica e radiológica completa, os pacientes com indicação para ATJ que preenchiam os critérios foram convidados a participar do estudo. Os que confirmaram a participação assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. O método de randomização utilizado foi a permuta em blocos, com o objetivo de manter uma distribuição semelhante do número de pacientes em cada grupo estudado. Blocos de oito pacientes foram criados, com diferentes combinações. Envelopes lacrados, opacos e numerados de 1 a 240 continham o grupo ao qual cada paciente pertencia:oprimeiro grupo (grupo A), submetido à ATJ com plataforma tibial fixa (DepuySynthes, Warsaw, IN, EUA), e o segundo grupo (grupo B), submetido à ATJ com plataforma tibial móvel (LCS, DepuySynthes, Warsaw, IN, EUA).

Todos os pacientes foram avaliados com questionários no pré-operatório e no pós-operatório com 6, 24, 48 e 96 meses com relação à função (WOMAC), qualidade de vida (SF-36) e percepção subjetiva da dor (Escala visual analógica de dor [EVA]).

Tamanho da Amostra

Para aceitar um risco alfa de 0.05 e um risco β de 0.20, 98 pacientes foram necessários para cada grupo para detectar uma diferença ≥ 08 pontos entre a média de pontuações pré e pós-operatórias para as dimensões de dor e função por meio do questionário de WOMAC, julgada uma diferença clinicamente importante.[18] Um desvio padrão (DP) comum de 20 foi assumido. A amostra foi superestimada em 20% para permitir eventuais perdas, de tal forma que cada grupo deveria conter 120 pacientes.


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Técnica Cirúrgica

Todas as próteses foram implantadas pelo mesmo cirurgião. Em todos os pacientes, realizou-se bloqueio anestésico do tipo raquimedular. Por 48horas, foi utilizada antibioticoterapia profilática com cefazolina sódica. Garrote pneumático foi usado rotineiramente. A via de acesso foi a anterior com artrotomia parapatelar medial. A patela foi evertida e substituída em todos os casos. Ambas as próteses tinham o componente femoral similar e todas eram estabilizadas posteriormente. Ambos os ligamentos cruzados foram extraídos. Realizava-se primeiro o corte ósseo tibial, horizontal, usando guia extramedular para tíbia e intramedular para o fêmur. Todos os componentes foram cimentados. Utilizou-se dreno de sucção por 24horas de rotina. Para a profilaxia tromboembólica, por 14 dias, os pacientes receberam heparina de baixo peso molecular.


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Reabilitação

Preconizou-se uma rápida mobilização, em que, no primeiro dia de pós-operatório, foram realizados exercícios metabólicos de tornozelo e exercícios isométricos para quadríceps. No segundo dia de pós-operatório, depois de retirado o dreno de sucção, iniciou-se o treino de marcha com andador e descarga de peso em ambos os membros. O treino de marcha foi realizado de acordo com a tolerância de cada paciente (dor e condições clínicas). Todos os pacientes realizaram sessões de uma hora de movimento passivo continuo (CPM), duas vezes ao dia (manhã e tarde), e o ângulo de movimento variava de acordo com a tolerância à dor de cada um. A alta hospitalar foi dada em média com 5dias de pós-operatório e quando o paciente atingisse próximo dos 90° de flexão do joelho e conseguisse deambular independentemente com muletas ou andador. As sessões de fisioterapias ambulatoriais começaram 1semana após a alta hospitalar. O programa de reabilitação ambulatorial durou em média 2meses, sendo semelhantes para os 2grupos.


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Avaliação Clínica

Realizou-se a avaliação da função por meio do WOMAC, sendo composto por três domínios: função, dor e rigidez. A soma dos pontos de cada domínio forma o resultado final, variando de 0 a 68. Para avaliar a qualidade de vida, foi usado o SF-36, variando de 0 a 100, apresentando 36 itens de resposta, envolvendo 8 conceitos: capacidade funcional, aspecto físico, dor, estado geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental. Aplicou-se também a EVA, variando de 0 a 10.


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Análises Estatísticas

Foi verificada a existência de associação entre os tipos de prótese e as características com uso de testes qui-quadrado.[19] As características quantitativas dos pacientes foram descritas segundo os tipos de prótese com uso de medidas resumo (média, DP, mediana e quartis, P25 e P75) e comparadas entre os grupos com uso de análise de testes t de Student.[19] Os escores das escalas avaliadas foram descritos segundo os tipos de prótese em cada momento de avaliação e comparados entre os tipos de prótese e momentos com uso de análises de equações de estimação generalizadas com distribuição marginal normal e função de ligação logarítmica, devido à assimetria de distribuição dos escores, supondo correlação autorregressiva de primeira ordem entre os momentos de avaliação.[20] As análises foram seguidas de comparações múltiplas de Bonferroni[21] para comparar os grupos e momentos, quando significativas as diferenças nos escores. As análises foram realizadas com os dados avaliados nos pacientes, mesmo considerando perdas durante o seguimento. Os resultados foram ilustrados com gráficos de perfis médios, com os respectivos errospadrão, tendo sido os testes realizados com nível de significância de 5%.

Zoom Image
Fig. 1 Fluxograma de fases.

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Resultados

Os pacientes foram recrutados consecutivamente de novembro de 2011 até dezembro de 2012. No total, 1.268 pacientes foram avaliados e 1.028 foram excluídos, resultando em uma amostra final de 240 pacientes. Os pacientes foram randomizados em 2grupos: 120 na ATJ com plataforma fixa e 120 na ATJ com plataforma móvel. Do grupo com plataforma fixa, cinco pacientes evoluíram para óbito, e seis não aderiram. Do grupo com plataforma móvel, seis evoluíram para óbito, quatro não aderiram, um teve acidente vascular cerebral (AVC)e um teve ruptura do ligamento patelar. Todos os óbitos ocorreram após > 2 anos de seguimento ([Figura 1]).

Dos 240 pacientes randomizados, 6do grupo com plataforma fixa e 5do grupo com plataforma móvel apresentaram complicações. No grupo com plataforma fixa, tivemos três casos de infecção, dois com embolia e um com trombose venosa profunda. No grupo com plataforma móvel, tivemos dois casos de infecção, um de trombose venosa profunda, um de AVCe um com ruptura do ligamento patelar.

As idades dos indivíduos da amostra foram compreendidas entre 59 e 70 anos, com média de 65,7 anos (DP = 3,7). Eram do gênero feminino 81%, com índice de massa corporal (IMC) de 30 (DP =4,7). As características pessoais avaliadas não apresentaram associação ou diferenças estatisticamente significantes;portanto, os grupos foram homogêneos, como mostra a [Tabela 1].

Tabela 1

Variável

Tipo de prótese

Total (N = 240)

valor-p

Fixa (N = 120)

Móvel (N = 120)

Gênero, n (%)

Feminino

96 (80)

100 (83,3)

196 (81,7)

0,505*

Masculino

24 (20)

20 (16,7)

44 (18,3)

Ladooperado, n (%)

Direito

64 (53,3)

57 (47,5)

121 (50,4)

0,366*

Esquerdo

56 (46,7)

63 (52,5)

119 (49,6)

Idade (anos)

média (DP)

65,9 (3,9)

65,4 (3,4)

65,7 (3,7)

0,369

mediana (P25; P75)

66 (63; 70)

65 (63; 68)

65 (63; 69)

Peso (Kg)

média (DP)

78,4 (12,1)

80,3 (13,5)

79,4 (12,8)

0,276

mediana (P25; P75)

78,5 (73; 85)

78,5 (71; 87)

78,5 (72; 86)

Altura (m)

média (DP)

1,62 (0,06)

1,62 (0,14)

1,62 (0,10)

0,320

mediana (P25; P75)

1,63 (1,6; 1,66)

1,63 (1,57; 1,67)

1,63 (1,59; 1,67)

IMC (Kg/m2)

média (DP)

29,7 (4,2)

30,2 (5,1)

30 (4,7)

0,426

mediana (P25; P75)

29,5 (27,2; 32,3)

30,1 (27,2; 33,1)

29,7 (27,2; 32,9)

No que diz respeito aos diversos domínios do questionário de qualidade de vida do SF-36, não foi mostrada diferença entre os grupos na qualidade de vida ao final do seguimento. Apenas em alguns domínios observa-se diferença entre os grupos, em determinados momentos. Um exemplo está no escore de dor em 1e 2anos de seguimento, mas que parece igualar nos demais momentos.

A [Tabela 2] mostra que o comportamento médio dos escores de capacidade funcional, dor e aspectos emocionais foram estatisticamente diferentes ao longo do seguimento nos grupos de pacientes, conforme os valores realçados na tabela. Os demais domínios de qualidade de vida apresentaram diferenças médias apenas ao longo do seguimento, nos diferentes momentos de avaliação, porém sem diferença entre os grupos.

Tabela 2

Variável

Momento

Tipo de prótese

valor-p Tipo de prótese

valor-pMomento

valor-pInteração

Fixa

Móvel

Média

DP

N

Média

DP

N

Capacidade Funcional

Pré

20,22

18,10

120

17,17

14,79

120

0,219

<0,001

0,019

6 meses

57,54

19,47

120

62,79

19,39

120

1 ano

65,46

15,38

120

74,42

17,32

120

2 anos

68,37

16,76

120

73,88

16,71

120

4 anos

61,63

15,46

120

63,88

15,14

120

8 anos

51,46

16,72

120

55,46

16,09

120

Aspectos Físicos

Pré

13,48

26,58

120

17,23

25,76

120

0,910

<0,001

0,536

6 meses

71,68

28,24

120

67,86

37,68

120

1 ano

77,08

24,38

120

73,96

31,49

120

2 anos

88,27

65,30

120

82,75

29,13

120

4 anos

84,77

23,00

120

75,43

35,65

120

8 anos

78,93

25,52

120

78,34

28,06

120

Dor

Pré

41,89

26,12

120

35,34

22,69

120

0,053

<0,001

0,004

6 meses

80,19

26,03

120

79,39

23,79

120

1 ano

75,41

30,97

120

86,20

18,29

120

2 anos

69,63

34,84

120

92,49

86,12

120

4 anos

76,72

28,09

120

81,05

19,50

120

8 anos

74,07

27,78

120

85,28

62,49

120

Estado Geral de Saúde

Pré

69,58

18,19

120

71,60

16,32

120

0,512

<0,001

0,167

6 meses

77,96

13,10

120

80,53

12,77

120

1 ano

78,10

12,54

120

76,38

15,23

120

2 anos

76,18

12,89

120

72,29

18,29

120

4 anos

77,21

14,26

120

75,18

15,45

120

8 anos

74,88

14,10

120

73,51

14,69

120

Vitalidade

Pré

68,03

18,79

120

68,45

19,16

120

0,366

<0,001

0,779

6 meses

78,64

14,60

120

78,14

15,10

120

1 ano

79,49

13,16

120

77,23

16,89

120

2 anos

78,36

14,18

120

75,43

17,09

120

4 anos

78,85

14,14

120

77,98

15,59

120

8 anos

79,56

16,12

120

77,98

15,93

120

Aspectos Sociais

Pré

45,90

26,75

120

50,80

27,66

120

0,062

<0,001

0,080

6 meses

81,65

23,33

120

86,17

20,40

120

1 ano

84,28

23,08

120

87,68

20,49

120

2 anos

85,06

21,43

120

84,22

23,49

120

4 anos

83,60

22,30

120

84,38

24,01

120

8 anos

78,95

25,64

120

87,13

20,68

120

Aspectos Emocionais

Pré

52,68

45,09

120

40,26

45,11

120

0,771

<0,001

0,036

6 meses

73,54

36,84

120

81,40

35,59

120

1 ano

79,74

34,68

120

86,65

29,79

120

2 anos

92,98

109,76

120

86,61

30,13

120

4 anos

86,88

90,35

120

86,08

29,47

120

8 anos

81,36

30,33

120

87,21

27,42

120

Saúde Mental

Pré

71,04

20,07

120

73,81

18,15

120

0,317

<0,001

0,484

6 meses

77,27

17,25

120

76,85

16,31

120

1 ano

76,87

17,04

120

77,20

13,12

120

2 anos

75,05

19,15

120

75,99

14,34

120

4 anos

75,09

19,65

120

78,43

14,58

120

8 anos

73,58

19,55

120

75,90

16,25

120

Na [Tabela 3], a EVA de dor e os escores de dor do WOMAC apresentaram, em média, comportamento estatisticamente diferente entre os grupos ao longo do seguimento (p< 0,001). No escore de função e rigidez do WOMAC, houve diferença média estatisticamente significante apenas ao longo do seguimento, nos diferentes momentos de avaliação, sem diferença entre os grupos (p< 0,001).

Tabela 3

Variável

Momento

Tipo de prótese

valor-pTipo de prótese

valor-pMomento

valor-pInteração

Fixa

Móvel

Média

DP

N

Média

DP

N

EVA de Dor

Pré

84,69

17,04

120

85,40

17,49

120

0,016

<0,001

<0,001

6 meses

26,43

22,13

120

24,70

22,43

120

1 ano

25,63

15,08

120

20,53

20,85

120

2 anos

28,83

19,40

120

16,57

18,97

120

4 anos

14,06

17,39

120

13,04

18,07

120

8 anos

13,78

16,37

120

10,56

16,59

120

WOMAC de Dor

Pré

13,60

3,86

120

14,04

3,42

120

0,032

<0,001

<0,001

6 meses

3,46

3,53

120

3,42

3,82

120

1 ano

3,86

3,30

120

2,67

3,91

120

2 anos

5,11

3,97

120

2,86

4,01

120

4 anos

2,91

3,06

120

2,24

3,92

120

8 anos

2,31

3,21

120

1,77

3,72

120

WOMAC função

Pré

43,64

13,91

120

45,36

12,60

120

0,037

<0,001

0,001

6 meses

14,11

11,78

120

10,94

9,45

120

1 ano

9,62

9,81

120

8,53

7,79

120

2 anos

8,83

9,81

120

7,11

7,39

120

4 anos

13,12

9,81

120

10,13

7,96

120

8 anos

21,37

10,90

120

18,31

8,47

120

WOMAC rigidez

Pré

4,40

2,43

120

5,01

2,34

120

0,198

<0,001

0,203

6 meses

1,38

1,66

120

1,31

1,40

120

1 ano

0,98

1,49

120

0,99

1,25

120

2 anos

0,88

1,49

120

0,58

1,00

120

4 anos

0,94

1,43

120

0,63

1,02

120

8 anos

0,93

1,49

120

0,68

1,04

120


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Discussão

O presente estudo prospectivo, randomizado e controlado constatou que, com 8anos de pós-operatório, não houve diferenças significativas no desfecho clínico dor dos questionários de qualidade de vida SF-36 e WOMAC, bem como nas pontuações da EVA após cirurgias de próteses de joelho com plataforma tibial fixa em relação aos implantes de plataforma móvel. Recentes estudos randomizados prospectivos[16] [22] [23] também não conseguiram constatar diferença na evolução clínica, análise radiológica ou sobrevivência entre as próteses fixa e móvel. Esses mesmos autores compararam os resultados clínicos dos dois tipos de implante no mesmo paciente e não encontraram diferenças nos escores de dor e amplitude de movimento articular (ADM) com 5anos de seguimento. Aglietti et al,[24] em seu estudo sobre pacientes submetidos a artroplastia unilateral de joelho que compara os dois tipos de próteses, também não observaram diferenças significativas com 3anos de seguimento nos escores de dor, embora maior flexão tenha sido apontada em joelhos com plataforma tibial fixa. É possível que a falta de diferença nos resultados clínicos após 8 anos de seguimento encontrados no presente estudo entre implantes com plataforma fixa e plataforma móvel deveu-se às características dos participantes, principalmente no que tange a faixa etária.

Além disso, o instrumento genérico para avaliação da qualidade de vida do SF-36 de pacientes nesta faixa etária contribui para confirmar estes resultados, mas nos parece insuficiente quando usado de maneira isolada para estabelecer conclusões do ponto de vista clínico. Quando analisada a dor, alguns pacientes confundem-se, pois, a questão relaciona-se com “dor no corpo.” Tanto as questões de dor, como aspectos emocionais, disposição, vitalidade, foram frequentemente respondidas positivamente, mas praticamente em todos os casos houve dificuldade para relacionarem a resposta diretamente ao joelho, por serem questões de abrangência maior.

A média de idade dos participantes do presente estudo foi de 65,7 (DP =3,7) anos, e a maioria não realizava atividades físicas de recreação ou esportivas que demandassem maior grau de movimento articular. Segundo Wylde et al,[16] a prótese de suporte tibial móvel foi concebida para proporcionar uma maior amplitude de movimento articular e permitir a participação em atividades que exijam uma maior mobilidade do joelho em todos os planos. Portanto, pode-se argumentar que o implante de apoio tibial móvel do joelho não atingiu seu pleno potencial nesse grupo de pacientes por tratar-se de estudo de uma população mais velha. Um ensaio clínico randomizado envolvendo pacientes mais jovens e mais ativos poderia revelar alguma vantagem funcional de um desenho sobre o outro.

Um achado importante deste estudo a destacar é o fato de que, em curto seguimento de tempo –2anos após a cirurgia, os escores de dor da EVA e WOMAC foram significativamente piores no grupo com plataforma tibial fixa (p< 0,05 e p< 0,001, respectivamente). Nesse momento, os piores escores de dor influenciaram negativamente na qualidade de vida em pacientes submetidos a ATJ com plataforma tibial fixa.

Ao mesmo tempo, nota-se paradoxalmente que, exatamente nesse período com 2anos de seguimento, os grupos tiveram os melhores escores da capacidade funcional, tanto nas avaliações do questionário de qualidade de vida SF-36 como nas avaliações funcionais do questionário de WOMAC, sem diferenças estatísticas significantes entre os grupos fixa e móvel.

Apesar de a ATJ já ter demonstrado ser um procedimento bem-sucedido para o tratamento de pacientes com osteoartrose, uma percentagem significativa ainda pode experimentar dor após a cirurgia.[25] Embora os resultados dos ensaios clínicos randomizados ainda não serem conclusivos para determinar se o tipo de implante pode influenciar na dor no joelho pós-operatória, os dados obtidos no presente estudo sugerem que, em 2anos de seguimento, o domínio dor do SF-36 influenciou menos na qualidade de vida no grupo de submetidos a ATJ com plataforma tibial móvel quando comparado ao grupo submetido à prótese total com plataforma fixa.

Aglietti et al[24] sugeriam que as vantagens de um projeto com apoio tibial móvel podem diminuir ao longo do tempo. Também se observa isso no presente estudo, em que, após 2anos de cirurgia, parece que os escores de dor se alinham novamente, não se registrando diferenças estatísticas significantes entre os grupos com 4 e 8 anos quanto aos níveis de dor. No entanto, como dor anterior do joelho é relevante para os pacientes mesmo num curto prazo, não se acredita que isso configure uma limitação para uso das ATJ com plataforma móvel.

Destaca-se como ponto forte deste estudo o fato de que todas as cirurgias foram realizadas pelo mesmo cirurgião, com experiência nos dois tipos de ATJ, minimizando os fatores de viés. Além disso, o seguimento é de médio a longo prazo, com um tamanho de amostra maior do que da maioria dos estudos anteriores. A fim de se reduzir o viés da aplicação, os questionários foram preenchidos pelos próprios pacientes, com ajuda do avaliador. As avaliações em todos os momentos foram realizadas por um fisioterapeuta que não sabia para qual grupo os pacientes tinham sido randomizados.

Como limitação da presente análise, pode-se citar a não divisão dos pacientes de acordo com a ADM prévia ao procedimento cirúrgico e final. Também não se realizou a análise radiológica no sentido de aferir vantagens de um implante sobre o outro com relação ao aspecto soltura, o que não era um objetivo da presentepesquisa.

Ao idealizar o presente estudo, o foco principal era averiguar se existiam diferenças funcionais e na qualidade de vida em um grupo de idosos com osteoartrose de joelho submetidos aos dois tipos de ATJ. No entanto, durante sua realização, algumas indagações surgiram e permanecem sem resposta, necessitando ser investigadas.


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Conclusão

Os dados do presente estudo demonstram que com 2anos de pós-operatório os escores de dor nos questionários SF-36, EVA e WOMAC foram piores no grupo ATJ plataforma fixa. Porém, os indivíduos submetidos à ATJ com plataforma tibial fixa não apresentaram diferenças funcionais e na qualidade de vida em comparação àqueles submetidos à artroplastia com plataforma tibial móvel, com seguimento de médio prazo.


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Conflito de Interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.


Endereço para correspondência

Mateus Kenji Christo Miyahira
Instituto Cohen
Av Lineu de Paula Machado 660, Cidade Jardim, São Paulo, SP, 05601-000
Brasil   

Publication History

Received: 08 July 2019

Accepted: 27 January 2020

Article published online:
08 July 2020

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Fig. 1 Fluxograma de fases.
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