CC BY-NC-ND 4.0 · Rev Bras Ortop (Sao Paulo) 2019; 54(02): 219-222
DOI: 10.1016/j.rboe.2017.11.017
Case Report | Relato de Caso
Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Published by Thieme Revnter Publicações Ltda Rio de Janeiro, Brazil

Osteoblastoma cervical: relato de caso[*]

Article in several languages: português | English
Carolina Oliveira
1  Departamento de Cirurgia Ortopédica, Unidade Local de Saúde do Alto Minho, Viana do Castelo, Portugal
,
Luísa Vital
2  Departamento de Cirurgia Ortopédica, Hospital de São João, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal
,
Francisco Serdoura
2  Departamento de Cirurgia Ortopédica, Hospital de São João, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal
,
André Rodrigues Pinho
2  Departamento de Cirurgia Ortopédica, Hospital de São João, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal
,
Vitorino Veludo
2  Departamento de Cirurgia Ortopédica, Hospital de São João, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal
› Author Affiliations
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Carolina Oliveira
Departamento de Cirurgia Ortopédica, Unidade Local de Saúde do Alto Minho
Viana do Castelo
Portugal   

Publication History

16 September 2017

21 November 2017

Publication Date:
10 May 2019 (online)

 

Resumo

Osteoblastoma é um tumor primário benigno raro. Constitui cerca de 3% dos tumores benignos e 1% de todos os tumores ósseos. O objetivo do tratamento é a ressecção completa, que limita o risco de recidiva. Por se tratar de um tumor vascularizado, a ressecção completa é, muitas vezes, difícil. Os autores descrevem um caso clínico de um paciente do sexo masculino de 19 anos que apresentava queixas de cervicalgia direita com irradiação para o ombro. O exame por tomografia computadorizada indicou uma lesão em C7 compatível com osteoblastoma. O paciente foi submetido a resseção cirúrgica após embolização pré-operatória e artrodese anterior. Aos 3 anos de seguimento, o paciente encontra-se assintomático e, até a data, sem evidência de recidiva.


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Introdução

O osteoblastoma é um raro tumor ósseo benigno primário que representa 3% das neoplasias benignas e 1% de todas as neoplasias ósseas primárias.[1] [2] Aproximadamente, entre 32 e 46% desses tumores envolvem a coluna.[2] [3] Essas lesões ocorrem predominantemente na segunda e terceira décadas de vida e no sexo masculino com proporção de 2:1 entre homens e mulheres.[3] [4] A dor é o sintoma mais comumente citado e, de modo geral, presente por mais de um ano antes do diagnóstico.[1] [2] [3] [4] O diagnóstico tardio dessas lesões está relacionado à sua baixa incidência, sintomas não específicos e exame radiológico normal durante o início da progressão da doença.[3] [4] O objetivo do tratamento é a ressecção cirúrgica completa, que permite a regressão total das queixas e diminui a probabilidade de recidiva.[2] [5]


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Relato de Caso

Seu histórico médico não era digno de nota. O paciente apresentava dor grave no pescoço e no ombro do lado direito há um ano, com piora à noite. A dor era progressiva, sem alívio com o tratamento médico e exacerbada nos últimos 2 meses com parestesias. Ao exame, a amplitude de movimentação cervical era restrita e dolorosa. O exame neurológico não foi digno de nota. A radiografia da coluna cervical era normal. A tomografia computadorizada (TC) cervical revelou uma lesão em massa com limites bem-definidos e acometimento da faceta articular e o pedículo direito de C7, com cerca de 18,9 × 15,2 milímetros em seu diâmetro maior e sem compressão da medula espinhal, compatível com um osteoblastoma ([Fig. 1]). Completamos o estudo com angiotomografia computadorizada (angio-TC) e Doppler dos vasos do pescoço, que revelaram estenose da artéria vertebral com plano de clivagem ([Fig. 2]). Decidimos pela ressecção cirúrgica.

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Fig. 1 Tomografia computadorizada cervical: lesão em massa com limites bem-definidos e acometimento da faceta articular e do pedículo direito de C7.
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Fig. 2 Angiotomografia computadorizada.

O paciente foi submetido à embolização pré-operatória um dia antes da cirurgia ([Fig. 3]). No dia seguinte, o paciente foi submetido à ressecção do tumor por abordagem posterior, seguida de artrodese intersomática C6-C7 com “gaiola” preenchida por autoenxerto da crista ilíaca para abordagem anterior ([Fig. 4]).

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Fig. 3 Imagens da embolização pré-operatória.
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Fig. 4 À esquerda: imagem intraoperatória da ressecção tumoral; à direita: radiografia pós-operatória (projeção lateral e anteroposterior).

Não houve intercorrências no período pós-operatório. Uma TC foi realizada no primeiro dia pós-operatório e demonstrou a ressecção cirúrgica completa ([Fig. 5]). O paciente teve alta no 5o dia após a cirurgia. O exame histopatológico confirmou o diagnóstico. Examinado 3 anos após a cirurgia, o paciente não apresenta queixas e realiza atividades da vida diária normal, sem evidência de recidiva ([Fig. 6]).

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Fig. 5 Tomografia computadorizada cervical pós-operatória: ressecção cirúrgica completa.
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Fig. 6 Radiografias da coluna cervical com 3 anos de acompanhamento: projeção lateral, anteroposterior e oblíqua.

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Discussão

O osteoblastoma e o osteoma osteoide foram descritos em 1935 por Jaffe apud Samdani et al.[3] Ambos são tumores benignos hipervasculares clínica e histologicamente semelhantes.[3] [6] No entanto, o osteoblastoma apresenta características mais agressivas. Pode ser localmente agressivo e causar comprometimento neurológico devido ao crescimento expansivo. Além disso, pode sofrer transformação maligna em osteossarcoma.[2] [3] [6]

O osteoblastoma geralmente acomete os elementos posteriores da coluna.[2] [4] [6] Embora considerado um tumor benigno, a recidiva das lesões na coluna não são incomuns e foram relatadas em 9,7 a 15% das séries de osteoblastomas espinhais.[6]

A apresentação mais comum é a dor cervical[1] [4] [6] sem alívio com anti-inflamatórios não esteroidais.[5] Outros sinais e sintomas comuns são torcicolo, rigidez e sensibilidade local.[4]

O diagnóstico é geralmente feito por TC.[5] A técnica delineia a localização e o acometimento ósseo da massa.[3]

A excisão cirúrgica é o tratamento de escolha para o osteoblastoma.[1] [2] [5] [7] Esse tratamento limita o risco de recidiva.[5] O principal motivo para a alta taxa de recidiva é a ressecção incompleta.[6] [7] O planejamento pré-operatório cuidadoso é essencial.[7]

Como o osteoblastoma é um tumor altamente vascular, a realização de ressecções completas é geralmente impedida pelo sangramento intraoperatório extenso.[2] Alguns autores recomendam a embolização pré-operatória. Esta técnica foi descrita em 1979 por Dick et al. e apud Samdani et al.[3] como terapia adjunta para tumores ósseos benignos. Mais recentemente, foi utilizada com sucesso em tumores espinhais altamente vasculares.[3] A embolização pré-operatória reduz o sangramento intraoperatório e ajuda a melhorar a visualização para realização da ressecção completa além de diminuir as complicações pós-operatórias.[2] [3]

Os autores relatam um caso bem-sucedido de osteoblastoma em C7. Neste caso, os autores preferiram uma abordagem em dois estágios. A abordagem posterior permitiu a ressecção do tumor. A abordagem anterior permitiu a fusão anterior para estabilização da coluna com gaiola intersomática e instrumentação com placa anterior e parafusos. Optamos pela artrodese anterior para facilitar o acompanhamento por imagem, pois diminui o artefato de imagem nos elementos posteriores que pode dificultar a interpretação de uma possível recidiva local.

Realizamos a embolização pré-operatória, que facilitou a ressecção do tumor porque diminui o sangramento e melhora a visualização. A ressecção completa dessa lesão permitiu a regressão completa das queixas e diminuiu a probabilidade de recidiva (sem ela, a taxa de recidiva relatada é de 9,8 a 15%).[6]


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Conflitos de interesse

Os autores declaram não ter conflitos de interesse.

* Estudo conduzido no Departamento de Cirurgia Ortopédica, Hospital de São João, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal.



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Carolina Oliveira
Departamento de Cirurgia Ortopédica, Unidade Local de Saúde do Alto Minho
Viana do Castelo
Portugal   


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Fig. 1 Tomografia computadorizada cervical: lesão em massa com limites bem-definidos e acometimento da faceta articular e do pedículo direito de C7.
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Fig. 2 Angiotomografia computadorizada.
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Fig. 3 Imagens da embolização pré-operatória.
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Fig. 4 À esquerda: imagem intraoperatória da ressecção tumoral; à direita: radiografia pós-operatória (projeção lateral e anteroposterior).
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Fig. 5 Tomografia computadorizada cervical pós-operatória: ressecção cirúrgica completa.
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Fig. 6 Radiografias da coluna cervical com 3 anos de acompanhamento: projeção lateral, anteroposterior e oblíqua.
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Fig. 1 Cervical CT scan: mass lesion with well-defined limits involving facet joint and the right pedicle of C7.
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Fig. 2 Angio-CT.
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Fig. 3 Preoperative embolization images.
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Fig. 4 Left: intraoperative picture of tumor resection; right: postoperative X-ray (lateral view and AP).
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Fig. 5 Post-operative cervical CT scan: complete surgical resection.
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Fig. 6 3 years follow-up cervical spine radiographs: lateral view, AP and oblique view.