CC BY-NC-ND 4.0 · Rev Bras Ortop (Sao Paulo) 2020; 55(03): 380-382
DOI: 10.1016/j.rbo.2018.04.004
Relato de Caso
Joelho
Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Published by Thieme Revinter Publicações Ltda Rio de Janeiro, Brazil

Osso meniscal diagnosticado através de ressonância magnética: Relato de caso[*]

Meniscal Ossicle Diagnosed by Magnetic Resonance Imaging: A Case ReportArticle in several languages: português | English
1  Faculdade de Medicina, Universidade de Itaúna, Itaúna, Brasil
,
Bianca Lisa de Faria
1  Faculdade de Medicina, Universidade de Itaúna, Itaúna, Brasil
,
Ana Maria Magalhães Valle Cundari
1  Faculdade de Medicina, Universidade de Itaúna, Itaúna, Brasil
› Author Affiliations
Further Information

Endereço para Correspondência

Henrique Augusto Lino, MD
Faculdade de Medicina, Trabalho feito na Universidade de Itaúna
Itaúna, MG
Brasil   

Publication History

30 December 2017

10 April 2018

Publication Date:
19 December 2019 (online)

 

Resumo

O osso meniscal é uma condição rara, ocasionalmente sintomática. Apesar de sua baixa incidência, é importante seu reconhecimento, uma vez que pode mimetizar outras lesões. A ressonância magnética (RM) é um método sensível e específico para seu diagnóstico. A evolução é de curso benigno e favorável ao tratamento conservador, não necessita de procedimentos diagnósticos e terapêuticos, como artroscopia, na grande maioria dos casos. No presente trabalho, foi demonstrado como o diagnóstico correto pode ser feito por RM.

Abstract

Meniscal ossicle is a rare condition, which is occasionally symptomatic. Even though it has a low incidence, its diagnosis is important, because it may mimic other lesions. Magnetic resonance imaging (MRI) is a sensitive and specific method for its diagnosis. Its clinical behavior is benign and its conservative management is almost always successful, without any need for diagnostic and therapeutic procedures, such as arthroscopy. This report was able to demonstrate the correct diagnosis by MRI.


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Introdução

O osso meniscal consiste em uma lesão rara, estima-se uma prevalência de 0,15% em pacientes submetidos à ressonância magnética (RM), através de um estudo seccional.[1] O achado pode ocorrer em exames de imagem de pacientes assintomáticos ou que foram submetidos aos estudos devido a queixas de dor articular intermitente, edema e limitação de movimento articular.[2]

Apesar de debatida sua etiologia,[3] o achado tem evolução benigna e, dessa forma, seu incorreto diagnóstico pode levar o paciente a procedimentos propedêuticos e terapêuticos desnecessários.

O presente relato tem por objetivo tratar de um caso, demonstrar a importância do reconhecimento de seus achados característicos à RM.[2] [4]


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Relato do Caso

Paciente masculino, branco, 35 anos, apresentava queixa de dor crônica em articulação do joelho, com piora progressiva ao longo de um ano. A dor exacerbava-se aos exercícios e ao decorrer do dia e aliviava-se com analgésicos e descanso.

Era um paciente hígido, sem comorbidades. Negava história de trauma. Também não apresentava histórico familiar relevante de doenças osteomusculares, reações alérgicas ou antecedentes cirúrgicos.

Ao exame físico, demonstrou dor em compartimento medial da articulação do joelho durante a flexão ativa e passiva da articulação. Não apresentava limitações de movimento articular, rigidez, edema, deformidades, sinais flogísticos ou outras alterações osteomusculares ou de tecidos moles. Diante da apresentação, o médico assistente optou por indicar RM para investigação de uma suspeita de ruptura meniscal.

O exame de imagem foi feito na semana subsequente, com aquisição de imagens em T1, T2 fatsat e Gradient Recoil Echo T2. As imagens evidenciaram uma estrutura de formato arredondado ou triangular, com contornos bem definidos e intensidade similar ao tecido ósseo, em todas as sequências, em topografia de corno posterior do menisco medial, como demonstrado nas [Figuras 1] [2] [3] [4]. Consequentes ao diagnóstico foram oferecidas as opções de tratamento com ressecção artroscópica do osso meniscal ou tratamento clínico. O paciente optou pela conduta conservadora, com uso de analgésicos e anti-inflamatórios para controle dos sintomas e acompanhamento clínico. A evolução foi favorável, sem necessidade de terapêutica adicional.

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Fig. 1 Imagem ponderada em T1WI em plano sagital, demonstra estrutura triangular, com intensidade equivalente a tecido ósseo, localiza-se em topografia de corno posterior do menisco medial.
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Fig. 2 Imagem ponderada em T1WI no plano axial, evidencia o osso meniscal adjacente ao corno posterior do menisco medial.
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Fig. 3 Imagem ponderada em T2WI fatsat no plano axial.
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Fig. 4 Imagem coronal obtida em GRE T2.

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Discussão

A primeira descrição com repercussão sobre a condição foi de Burrows,[5] em 1934, com estudo clínico, radiológico e anatomopatológico do caso. Desde então, foram relatados < 50 casos em todo o mundo.[6] Estima-se que sua maior incidência ocorra entre os 12 e 76 anos, com diagnóstico em média aos 26 anos; 84% dos casos são incidentes em homens.[4]

A lesão pode ser assintomática, ser encontrada acidentalmente ou apresentar artralgia, como no caso relatado, e edema. Raramente associa-se a sintomas inespecíficos ou limitação de movimento articular.[6] Alguns autores apontam associação do achado com trauma articular, porém não é consensual sua natureza traumática.[7] Dessa forma, sua apresentação clínica é inespecífica e não permite um diagnóstico definitivo.

O método mais sensível e específico para diagnóstico da lesão é a RM, uma vez que permite caracterizá-la como isointensa ao tecido ósseo. Sua localização mais comum é em topografia de corno posterior do menisco medial. Os casos de menisco lateral, cornos anteriores ou ossos bilaterais são apresentações consideravelmente mais raras.

Referentemente aos aspectos clínicos e de imagem, corpos livres osteocondrais, condrocalcinose, ruptura meniscal, osteocondrite dissecante e osteocrondomatose sinovial são seus principais diagnósticos diferenciais.[8] A maior importância em seu diagnóstico acurado consiste em evitar propedêutica e tratamentos desnecessários, uma vez que, ao contrário das condições supracitadas, seu tratamento conservador com anti-inflamatórios tende a ser suficiente para controle clínico.[6] [9] Ocasionalmente, pode-se optar pelo tratamento com ressecção artroscópica.[6] [7] [10]

O osso meniscal tem apresentação característica à RM, que é um método acurado para seu diagnóstico. Ao ser corretamente diferenciado de outros potenciais diagnósticos diferenciais, é evitada propedêutica e terapêutica invasiva, uma vez que seu tratamento conservador tende a ser eficaz e evita-se maior morbidade e gastos para o paciente ou o sistema público de saúde.


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Conflitos de Interesses

Os autores declaram não haver conflitos de interesses.

* Publicado Originalmente por Elsevier editora Ltda.



Endereço para Correspondência

Henrique Augusto Lino, MD
Faculdade de Medicina, Trabalho feito na Universidade de Itaúna
Itaúna, MG
Brasil   


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Fig. 1 Imagem ponderada em T1WI em plano sagital, demonstra estrutura triangular, com intensidade equivalente a tecido ósseo, localiza-se em topografia de corno posterior do menisco medial.
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Fig. 2 Imagem ponderada em T1WI no plano axial, evidencia o osso meniscal adjacente ao corno posterior do menisco medial.
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Fig. 3 Imagem ponderada em T2WI fatsat no plano axial.
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Fig. 4 Imagem coronal obtida em GRE T2.
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Fig. 1 T1WI weighted image in sagittal plane, demonstrates triangular structure, with intensity equivalent to bone tissue, located in posterior horn topography of the medial meniscus.
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Fig. 2 T1WI weighted image in axial plane, evidences the meniscal ossicle adjacent to the posterior horn of the medial meniscus.
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Fig. 3 T2WI fatsat weighted image in axial plane.
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Fig. 4 Coronal image obtained in GRE T2.