CC BY-NC-ND 4.0 · Rev Bras Ortop (Sao Paulo) 2019; 54(01): 069-072
DOI: 10.1016/j.rbo.2017.10.005
Original Article | Artigo Original
Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Published by Thieme Revnter Publicações Ltda Rio de Janeiro, Brazil

Prevalência da deficiência de vitamina D em pacientes com fraturas ocasionadas por trauma de baixa energia[*]

Article in several languages: português | English
Nilo Devigili Júnior
1  Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, SC, Brasil
,
Luiza Botega
1  Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, SC, Brasil
,
Simony dos Reis Segovia da Silva Back
2  Laboratório Santé, Tubarão, SC, Brasil
,
Willian Nandi Stipp
3  Hospital Nossa Senhora da Conceição, Tubarão, SC, Brasil
,
3  Hospital Nossa Senhora da Conceição, Tubarão, SC, Brasil
› Author Affiliations
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Address for correspondence

Martins Back Netto
Hospital Nossa Senhora da Conceição
Tubarão, SC
Brasil   

Publication History

25 August 2017

19 October 2017

Publication Date:
01 March 2019 (online)

 

Resumo

Objetivo

Avaliar os níveis séricos da 25–hidroxivitamina D [25(OH)D] em pacientes internados com fraturas causadas por traumas de baixa energia e analisar o perfil desses pacientes e os principais tipos de fraturas.

Métodos

Estudo transversal observacional em que foram obtidas amostras séricas de 25(OH)D de 40 pacientes internados com fraturas resultantes de trauma de baixa energia. As seguintes variáveis foram analisadas: tipo da fratura, idade, sexo, uso de vitamina D, tabagismo, atividade física e uso de protetor solar.

Resultados

Apresentaram níveis deficientes de 25(OH)D 29 (72,5%) pacientes, dez (25%) apresentaram níveis insuficientes e apenas um (2,5%) apresentou níveis suficientes. Os pacientes que faziam uso de vitamina D obtiveram níveis de 25(OH)D (24,8 ± 12,75) estatisticamente significantes (p = 0,048) em relação aos que não usavam (16,47 ± 6,28). Além disso, aqueles que praticavam exercícios físicos duas a três vezes por semana obtiveram uma concentração média de 25(OH)D (22,5 ± 6,08 ng/mL) estatisticamente significante (p = 0,042) em comparação com o grupo que referiu não fazer atividade física (15,5 ± 7,25 ng/mL).

Conclusão

A prevalência da deficiência de 25(OH)D foi de 72,5%, indivíduos que praticavam atividade física duas a três vezes por semana, bem como aqueles que faziam uso de vitamina D, apresentaram um nível maior de vitamina D.


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Introdução

As fraturas osteoporóticas são de grande incidência, além de ser uma das maiores causas de morbidade e mortalidade em idosos, geram um custo de cerca de seis milhões de dólares por ano ao setor privado de saúde no Brasil.[1] [2] [3] [4] Através de projeções estima-se que a população idosa continuará a crescer, portanto aumentará ainda mais a prevalência dessa condição.[5] O risco de uma pessoa desenvolver alguma fratura osteoporótica durante a vida é de 40–50% para mulheres e de 13–22% para homens.[6]

A vitamina D é, ao contrário de muitas vitaminas, um precursor hormonal, que pode ser obtido através da dieta e da síntese endógena pela pele.[7] A deficiência da vitamina D causa diminuição da absorção de cálcio e consequentemente aumento do PTH, o que eleva o cálcio sérico e diminui o fosfato, aumenta a atividade dos osteoclastos e, portanto, exacerba a osteopenia e osteoporose.[8] [9] De tal modo, evidências apontam estar relacionada a uma diminuição da densidade mineral óssea mesmo na população saudável. Além disso, nos idosos a força muscular está diminuída, o que aumenta o risco de quedas.[10] [11]

Assim, o presente estudo foi feito para avaliar a prevalência da deficiência de vitamina D nos pacientes internados com fraturas ocasionadas por traumas de baixa energia e possíveis fatores associados.


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Material e Métodos

Delineamento, Critérios de Inclusão e Exclusão

O presente estudo teve um delineamento transversal observacional. A população estudada, de 1 de julho de 2016 até 31 de outubro de 2016, foram os pacientes internados no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão (SC), devido a fraturas de baixa energia. Nesse período foram internados 55 pacientes. Desses, 15 foram excluídos por não preencher os critérios de inclusão ou exclusão. Foram incluídos os pacientes internados por fraturas causadas por traumas de baixa energia, considerados trauma de baixa energia queda da própria altura e torções. Os critérios de exclusão foram: crianças; recusa em participar do estudo; os pacientes que não tinham capacidade de responder ao questionário ou que não tiveram um acompanhante capaz de responder adequadamente e os pacientes com dados incompletos a serem pesquisados no prontuário.


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Variáveis

A coleta dos dados foi feita através de questionário respondido pelos pacientes e/ou acompanhantes, com idade, sexo, histórico de fratura prévia, diagnóstico de osteoporose, uso de vitamina D, uso de protetor solar, tabagismo e prática de exercícios. Foram considerados com osteoporose aqueles pacientes que tiveram esse diagnóstico feito pela densitometria óssea conforme preconiza a Organização Mundial de Saúde.[12] Em relação à vitamina D foi considerado se estava em uso atual ou não, não perguntado sobre posologia. Sobre o uso do tabaco foi perguntado se já fumara, se fumava ou se nunca fumara. Foram considerados atividade física caminhar, dançar, nadar e andar de bicicleta, distribuídos conforme a frequência semanal. A vitamina D foi coletada a partir de amostras de sangue, obtidas através de punção venosa periférica, para avaliar a concentração de 25-HidroxivitaminaD [25(OH)D] sérica, a qual foi obtida pelo método de quimioluminescência. Essa foi classificada de acordo com Holick,[13] o qual propõe que níveis menores do que 20 ng/mL sejam considerados deficiência de vitamina D, níveis entre 21 e 29 ng/mL como insuficiência e a intoxicação em níveis maiores do que 150 ng/mL.


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Processamento e Análise

Os dados coletados foram inseridos em um banco de dados criado no programa Epi Info versão 7.2 para análise. As variáveis qualitativas foram descritas por meio de frequência absoluta (n) e percentual (%), enquanto medidas de tendência central e dispersão dos dados (média e desvio-padrão) para as variáveis quantitativas. Para comparação de subgrupos foram usados os testes t de Student quando na presença de distribuição paramétrica e o teste de Mann-Whitney quando não paramétrica e o teste Anova para comparações múltiplas. O nível de significância adotado foi de 5%.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição local, sob número CAAE 51401915.4.0000.5369.


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Resultados

A amostra totalizou 40 pacientes, dos quais 12 (30%) foram homens e 28 (70%) mulheres, com uma média de 78,3 anos (±8,14) e uma concentração de vitamina D com média equivalente a 17,10 ng/mL (±7,05), foram classificados de acordo com a [Fig. 1].[13] Desses, 36 (90%) foram internados devido a fraturas de fêmur proximal, um (2,5%) por fratura do rádio distal, dois (5%) por fratura do úmero proximal, um (2,5%) fratura do tornozelo.

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Fig. 1 Níveis de vitamina D de acordo com classificação de Holick.[13]

Os pacientes que praticavam exercícios físicos duas a três vezes por semana obtiveram uma média da concentração de 25(OH)D (22,5 ng/mL e ± 6,08) estatisticamente significante (p = 0,042) em comparação com o grupo que referiu não fazer atividade física (15,5 ng/mL ± 7,25).

Os indivíduos que referiram o uso contínuo de vitamina D apresentaram níveis médios de 25-OH-vitamina D (24,8 ± 12,75) estatisticamente significante (p = 0,048) em relação aos que não usavam (16,47 ± 6,28).

As demais variáveis não foram estatisticamente significantes e estão apresentadas na [Tabela 1].

Tabela 1

Variáveis

Subgrupos

n

média

DP

P

Sexo

Masculino

12

17,76

7,27

0,7[a]

Feminino

28

16,81

7,07

Idade

60–65 anos

2

13,85

7,84

0,71[b]

66–70 anos

5

15,9

5,56

71–75 anos

7

16,97

7,62

76–80 anos

12

19,46

6,62

>80 anos

14

16,03

7,9

Tabagismo

Tabagista

2

14,4

5,37

0,79[b]

Ex-tabagista

16

16,68

6,74

Nunca fumou

22

17,65

7,58

Pratica de exercícios físicos

2 a 3 vezes por semana

2

22,5

6,08

0.048[c]

Não faz

25

15,55

7,26

Protetor solar

Uso diário

6

16,08

7,27

0,85[b]

Uso ocasional

3

18,63

6,22

Nunca usa

31

17,15

7,26

Osteoporose

Tem

11

19,38

8,03

0,21[b]

Não tem

29

16,23

6,59

Suplementação de vitamina D

Em uso de vitamina D

3

24,8

12,75

0,048[b]

Não usa vitamina D

37

16,47

6,28


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Discussão

A presente pesquisa encontrou uma prevalência de deficiência da vitamina D de 72,5%. Dado semelhante a Schweitzer et al.,[14] que analisaram uma população similar, porém apenas aqueles com fraturas proximais do fêmur, encontraram uma prevalência de 80%, com uma média de 84 anos ± 7 anos e uma correlação positiva da idade com a concentração de 25(OH)D. Tal correlação poderia ser explicada pelo fato de Schweitzer ter obtido uma população mais idosa e assim com maior número de comorbidades. Isso pode acarretar em menor mobilidade, bem como maior dependência desses pacientes, com consequente menor exposição solar.

O estudo de Guerra et al.,[15] um caso controle que comparou 110 pacientes idosos com fraturas e 231 sem fraturas, encontrou 54%, 27,2% e 18,2% de pacientes com deficiência, insuficiência e suficiência respectivamente naqueles com fratura, os quais tiveram níveis inferiores em relação ao grupo sem fratura. Neste estudo também não foram encontradas diferenças significativas em relação ao sexo e idade.

Já Gumiero et al.[16] analisaram a relação da vitamina D com a recuperação da marcha em pacientes com fraturas proximais de fêmur. Obtiveram uma população semelhante com uma média de 80,2 ± 7,3 anos, 77% mulheres. Porém, diferentemente desse estudo, a deficiência de vitamina D encontrada foi de 33,7%, não está relacionada com outras variáveis como sexo, idade, tipo da fratura ou a recuperação da marcha.

O uso de vitamina D prévia também foi avaliado em pacientes nos Estados Unidos com fraturas de baixa energia no quadril, úmero, punho, vértebras e costelas, por Simonelli et al.[17] O estudo evidenciou uma prevalência da deficiência de 25(OH)D de 82% nos pacientes, sem haver relação entre o sexo ou idade. Também se observou uma diferença significativa dos níveis de vitamina D em pacientes que faziam suplementação [16,4 (±6,9)] contra os que não faziam [11,9 (±5,5)], corroborou os dados encontrados na presente pesquisa. Um fato que chama a atenção é que, embora a suplementação seja útil para aumentar os níveis séricos, é necessário rever a aderência dos pacientes e o próprio esquema terapêutico, uma vez que mesmo assim os pacientes tiveram níveis insuficientes e/ou deficientes.

A prática de exercício físico foi revelada como significante no presente estudo, porém outros trabalhos não avaliaram tal variável. Portanto, são necessárias mais evidências para confirmação dessa, principalmente pela possibilidade de um viés relacionado à maior exposição solar dos pacientes praticantes de atividade física, de tal forma que poderiam obter níveis maiores da vitamina.

A principal fragilidade do estudo atrelou-se ao fato de o questionário ser respondido pelos próprios pacientes e acompanhantes, pode haver viés de memória. Além disso, não foram analisadas as comorbidades de cada paciente, as quais poderiam interferir nos resultados obtidos; nada obstante, caso fossem avaliadas, poderiam ser geradoras de fator de confusão.


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Conclusão

A deficiência de 25(OH)D teve uma prevalência de 72,5%, a insuficiência de 25% e apenas 2,5% teve níveis suficientes. Os pacientes que faziam exercícios físicos e os que usavam vitamina D obtiveram níveis mais elevados de 25(OH)D.


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Conflitos de Interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

* Trabalho desenvolvido na Universidade de Santa Catarina e Hospital Nossa Senhora da Conceição, Tubarão, SC, Brasil. Publicado originalmente por Elsevier Editora Ltda. © 2018 Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.



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Martins Back Netto
Hospital Nossa Senhora da Conceição
Tubarão, SC
Brasil   


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Fig. 1 Níveis de vitamina D de acordo com classificação de Holick.[13]
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Fig. 1 Vitamin D levels according to the Holick classification.[13]