CC BY-NC-ND 4.0 · Rev Bras Ortop (Sao Paulo) 2019; 54(01): 083-086
DOI: 10.1016/j.rbo.2017.06.029
Case Report | Relato de Caso
Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Published by Thieme Revnter Publicações Ltda Rio de Janeiro, Brazil

Desartrodese de anca – relato de três casos[*]

Article in several languages: português | English
1  Departamento de Ortopedia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Coimbra, Portugal
,
António Figueiredo
1  Departamento de Ortopedia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Coimbra, Portugal
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Diogo Lino Moura
Departamento de Ortopedia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Coimbra
Portugal   

Publication History

20 May 2017

06 June 2017

Publication Date:
01 March 2019 (online)

 

Resumo

A desartrodese de anca, isto é, a conversão da artrodese ou fusão óssea cirúrgica em uma artroplastia de substituição articular da anca, é uma intervenção difícil e desafiante, na medida em que é preciso reconstruir uma articulação perante uma consolidação óssea e uma imobilização muitas vezes de longa duração entre fêmur e acetábulo, já com importantes alterações anatômicas e retrações dos tecidos moles adjacentes, com encurtamento do membro associado. Visto que a artrodese de anca é uma cirurgia cada vez mais raramente aplicada, consequentemente a desartrodese é cada vez menos frequente. Nesse artigo, os autores apresentam três casos raros de pacientes com artrodeses da anca de longa duração submetidos a conversão para artroplastia total e descrevem a técnica de desartrodese usada e seus resultados clínico-funcionais.


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Introdução

O aumento das exigências funcionais dos pacientes e do tempo de sobrevivência da artroplastia total da anca, bem como o desenvolvimento de cirurgias conservadoras da anca dolorosa, fez com que a artrodese da anca se tornasse uma intervenção de recurso e uma opção de revisão de última linha.[1] [2] [3] [4] Apesar de permitir alívio álgico, a perda da mobilidade articular tem como consequência biomecânica cargas compensatórias excessivas nas articulações adjacentes que provocam alterações degenerativas sintomáticas, em particular da coluna lombar, do joelho homolateral e da anca contralateral. Além disso, os pacientes ficam limitados na marcha e muitos são incapazes de se sentar. A cirurgia que pode resolver essas limitações é a desartrodese, isto é, a conversão da fusão óssea numa artroplastia.[2] [5] [6] Visto a artrodese da anca ser uma cirurgia cada vez menos indicada, a desartrodese é também por consequência cada vez menos frequente. Apresentamos três raros casos de desartrodeses da anca efetuadas pelo mesmo cirurgião.


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Relato dos Casos

Técnica de Desartrodese

Inicialmente procede-se ao planejamento pré-operatório, em particular do grau de dismetria a corrigir e as características do material de artrodese a extrair. Através de via de abordagem posterior, procede-se à osteotomia do colo femoral in situ. A identificação da grande chanfradura ciática, U radiológico, colunas acetabular anterior e posterior e orifício obturador permite localizar a cavidade acetabular original. Para saber até onde avançar na fresagem acetabular, os autores perfuram o centro da cavidade acetabular progressivamente com uma brocafina até deixar de sentir consistência óssea. O comprimento da broca em posição intraóssea corresponderá à quantidade óssea remanescente no acetábulo até posição intrapélvica, deve a profundidade da fresagem ser inferior a esse comprimento. A fluoroscopia intraoperatória poderá também ser útil na identificação do nível de osteotomia do colo femoral e do verdadeiro fundo acetabular. Nessa fase procura-se corrigir o encurtamento do membro e garantir uma amplitude de movimentos aceitável à custa de libertação de tecidos moles retraídos (entre as quais tenotomia do psoasilíaco, retofemoral, ísquio-tibiais e adutor longo). Em seguida, faz-se a fresagem femoral e aplicação dos componentes protésicos após provas de estabilidade. Uma vez que a maioria das desartrodeses é efetuada em idades relativamente jovens, que estão associadas a bom capital ósseo, a fixação protésica preferida é a não cimentada, reforçada com parafusos no acetábulo. O par articular de escolha é o metal-polietileno. A duração da cirurgia está entre as duas e três horas e a perda sanguínea é aproximadamente de 1.000 mL. O pós-operatório consiste em marcha com canadianas com carga parcial durante dois meses, seguida de período prolongado de reabilitação com foco no aparelho abdutor.


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Caso 1

Paciente, sexo masculino, aos 18 anos foi submetido a artrodese da anca direita com placa cobra devido a artrose dolorosa em contexto de espondilite anquilosante ([Fig. 1]). Passados 15 anos com artrodese, foi submetido a desartrodese por queixas de reduzida funcionalidade. Ao contrário dos outros casos, nesse paciente foi usado um par metal-metal. Após oito anos de seguimento, o Hip Harris Score é de 78,7, faz marcha com uma canadiana com Trendelenburg ligeiro e refere um índice de satisfação com a cirurgia de 4 em 5 (escala de 0 a 5). Esse paciente desenvolveu uma reação metal-metal, resolvida com substituição da interface por metal-polietileno.

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Fig. 1 (A) radiografia demonstra artrodese da anca direita com placa de cabeça de cobra; (B) radiografia demonstra desartrodese da anca direita aos oito anos de seguimento pós-operatório.

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Caso 2

Paciente, sexo masculino, aos 14 anos foi submetido a artrodese da anca esquerda com placa devido a fratura da anca ([Fig. 2]). Passados 59 anos com artrodese, foi submetido a desartrodese por queixas de dismetria, dor axial na coluna lombar e no joelho homolateral. Devido à pobre função da musculatura abdutora e à estabilidade da neoarticulação insuficiente verificadas intraoperatoriamente, aplicou-se uma prótese com dupla mobilidade. Após três anos de seguimento, refere melhoria das queixas álgicas ainda que de forma incompleta, o Hip Harris Score é de 89,3, faz marcha autônoma com Trendelenburg ligeiro e refere um índice de satisfação de 5 em 5.

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Fig. 2 (A) radiografia demonstra artrodese da anca esquerda; (B) radiografia demonstra desartrodese da anca esquerda aos quatro anos de seguimento pós-operatório.

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Caso 3

Paciente, sexo feminino, aos 15 anos foi submetida a artrodese da anca esquerda com parafusos devido a fratura da anca ([Figs. 3] e [4]). Passados 31 anos com artrodese, foi submetida a desartrodese por queixas de reduzida funcionalidade. Por fissura femoral na aplicação da haste, reforçou-se o fêmur proximal com cerclage. Após dois anos de seguimento, o Hip Harris Score é de 94,6, faz marcha autônoma com Trendelenburg ligeiro e refere um índice de satisfação de 5 em 5.

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Fig. 3 (A) radiografia demonstra artrodese da anca direita com parafusos transarticulares; (B) radiografia demonstra desartrodese da anca direita aos três anos de seguimento pós-operatório.
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Fig. 4 (A) via posterolateral e osteotomia do colo femoral antes da fresagem acetabular; (B) aplicação do componente acetabular; (C) preparação femoral; (D) provas de estabilidade; (E) aplicação de haste não cimentada e fissura iatrogênica; (F) aplicação de haste femoral definitiva e cerclage de reforço.

Não se registaram mais complicações e em todos os casos conseguiram-se membros isométricos.


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Discussão

A desartrodese da anca é uma intervenção desafiante, na medida em que se tem de reconstruir uma articulação perante uma fusão óssea e uma imobilização de longa duração entre fêmur e acetábulo, já com importantes alterações anatômicas e retrações dos tecidos moles, com encurtamento do membro associado.[1] [2] [5] [7] [8] [9] A alteração da biomecânica da anca, a existência de uma cirurgia prévia (a artrodese) e a complexidade da intervenção fazem com que esteja associada a taxas importantes de complicações, entre as quais insuficiência do aparelho abdutor, instabilidade, descolamento protésico e infecção.[1] [2] [3] [6] [8] [10] A única complicação verificada nos casos descritos foi uma reação metal-metal, algo não relacionado com a desartrodese, mas com o par articular usado e que atualmente está em desuso. O uso de uma cúpula de dupla mobilidade no caso 2 permitiu provavelmente evitar uma instabilidade por insuficiência dos abdutores e garantir bons resultados funcionais nesse paciente. O maior desafio cirúrgico da desartrodese é o reconhecimento e a criação da cavidade acetabular no centro de rotação da anca, enquanto o maior desafio no pós-operatório é a reabilitação da musculatura abdutora atrofiada, desvascularizada e sem função durante décadas com a anca artrodesada.[3] [4] [7] [9] [10] Ainda assim, consegue-se uma recuperação importante da função abdutora, o que confirma pelo sinal de Trendelenburg presente ser apenas ligeiro após período reabilitaçãoo progressiva. Apesar de a desartrodese ser uma intervenção exigente e com elevado índice de complicações relatado na literatura, esses casos mostram que através duma técnica cirúrgica e reabilitação adequadas essa pode ter resultados funcionais satisfatórios e reduzida taxa de complicações, permite melhorar substancialmente a qualidade de vida dos pacientes com artrodese da anca.


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Conflitos de Interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

* Trabalho desenvolvido no Departamento de Ortopedia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Coimbra, Portugal. Publicado originalmente por Elsevier Editora Ltda. © 2018 Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.



Address for correspondence

Diogo Lino Moura
Departamento de Ortopedia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Coimbra
Portugal   


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Fig. 1 (A) radiografia demonstra artrodese da anca direita com placa de cabeça de cobra; (B) radiografia demonstra desartrodese da anca direita aos oito anos de seguimento pós-operatório.
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Fig. 2 (A) radiografia demonstra artrodese da anca esquerda; (B) radiografia demonstra desartrodese da anca esquerda aos quatro anos de seguimento pós-operatório.
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Fig. 3 (A) radiografia demonstra artrodese da anca direita com parafusos transarticulares; (B) radiografia demonstra desartrodese da anca direita aos três anos de seguimento pós-operatório.
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Fig. 4 (A) via posterolateral e osteotomia do colo femoral antes da fresagem acetabular; (B) aplicação do componente acetabular; (C) preparação femoral; (D) provas de estabilidade; (E) aplicação de haste não cimentada e fissura iatrogênica; (F) aplicação de haste femoral definitiva e cerclage de reforço.
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Fig. 1 (A) radiography showing right hip arthrodesis with a snake plate; (B), radiography showing right hip desarthrodesis at 8 years of postoperative follow-up.
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Fig. 2 (A) radiography showing left hip arthrodesis; (B), radiography showing left hip desarthrodesis at 4 years of postoperative follow-up.
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Fig. 3 (A) radiography showing right hip arthrodesis with transarticular screws; (B), radiography showing right hip desarthrodesis at 3 years of postoperative follow-up.
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Fig. 4 (A) posterolateral route and osteotomy of the femoral neck before acetabular milling; (B), acetabular component application; (C), femoral preparation; (D), stability proofs; (E), non-cemented rod application and iatrogenic fissure; (F), definite femoral rod application and reinforced cerclage.